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sábado, 23 de abril de 2016

Frank e Ava: uma história de amor

Era uma vez Francis Albert Sinatra, nascido em Hoboken em dezembro de 1915, com uma voz maravilhosa e belos olhos azuis. No começo dos anos 40, ele atraiu multidões para seus shows, e logo depois estreou no cinema. Era uma vez Ava Lavinia Gardner, nascida na Carolina do Norte em dezembro de 1922, uma garota da fazenda cuja beleza foi notada por Hollywood e pouco aproveitada nos primeiros anos. O casal mais bonito do século XX era assim formado.
O relacionamento de Frank e Ava poderia ser contado de muitas maneiras. Seria possível criar um reality show barato e de qualidade questionável em cima das brigas do casal. Seria possível encher um livro de fofocas sobre eles. Seria possível contar histórias impressionantes e proibidas para menores de 18 anos. Mas este blog não foi, não é e nunca será, um espaço para fofoca. Hollywood Babylon é outra coisa. O foco aqui será nos momentos bons do casal, aqueles momentos que ficam marcados na memória e que foram os responsáveis pela paixão eterna entre Frank e Ava.
Em 1948, Frank e Ava já haviam se encontrado algumas vezes. A primeira vez foi em 1940, quando Ava tinha acabado de chegar a Hollywood. Frank se lembra de que a considerou bonita, mas jovem demais para ele. Três anos depois, eles dançaram juntos em uma festa, mas Frank estava acompanhado de Lana Turner, e Ava, de Howard Hughes.
Em 1948, Ava Gardner já havia se casado duas vezes: primeiro com Mickey Rooney, depois com Artie Shaw. Os dois casamentos acabaram em divórcio. Em 1948, Frank estava ainda em seu primeiro casamento, e sua filha Tina tinha acabado de nascer. Em uma noite fatídica de 1948, Frank estava no terraço de sua cobertura em Hollywood e o amigo e compositor Sammy Cahn apontou a casa de Ava, descendo a Sunset Strip.
Maliciosamente, Frank a chamou, e a inconfundível voz de veludo foi reconhecida. Ava apareceu na janela e acenou. Dias depois eles se encontraram pessoalmente e começaram a sair. Em 1950, Frank se divorciou de sua esposa Nancy. Em 1951, ele e Ava se casaram em uma pequena cerimônia.
Frank e Ava eram como dois compostos químicos, que até se misturavam, mas logo causavam uma violenta reação. Foi um relacionamento explosivo desde o começo, com sexo, álcool, traições, discussões e pedidos de desculpa. Para Frank Sinatra e Ava Gardner, a vida deveria ser encarada de maneira intensa.
Quando o casamento começou a ruir, parecia a história de “Nasce uma Estrela”: a esposa ia conquistando mais e mais sucesso, enquanto o marido perdia seu lugar no show business. À frente de Ava estavam papéis icônicos em “Mogambo” (1953) e “A Condessa Descalça” (1954). Frank estava longe do cinema desde 1951, e via sua popularidade minguando com o surgimento do rock’n roll.
Em 1953, Sinatra conseguiu, graças à esposa, um papel no filme “A um Passo da Eternidade / From Here to Eternity”, que deu nova vida à sua carreira e lhe rendeu um Oscar. Na mesma época, Ava foi filmar na Europa. O relacionamento já cambaleava, e em 1954 Ava pediu o divórcio.
A separação defintiva só veio em 1957. Até lá, e mesmo depois, os encontros amorosos não pararam, muito menos as brigas. Frank e Ava continuaram próximos até a morte dela.
Do relacionamento sobrou um amor imenso e a paixão de Ava por Corgis. No Natal de 1953, Frank deu a Ava um Corgi, que batizou de Rags, e a partir daí esta se tornou a raça de cão favorita de Ava. Ela nunca mais dispensou a companhia dos Corgis. Após sua morte, em 1990, seu último cachorro, Morgan, foi viver com o amigo de Ava, Gregory Peck.
Ava Gardner nunca mais se casou. Frank Sinatra se casou mais duas vezes. Eles, entretanto, nunca esqueceram um do outro, e jamais superaram a separação. Frank e Ava são um caso não tão raro de um par perfeito arruinado pelo casamento. O casal mais bonito e explosivo de Hollywood não viveu feliz para sempre, mas o amor nunca acabou.

*As informações deste post foram obtidas de textos escritos por James Kaplan, biógrafo de Frank Sinatra.


This is my contribution to the Star-Studded Couple Blogathon, hosted by Phyllis at Phyllis Loves Classic Movies.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

No Entardecer da Vida / Forever Female (1953)

Você já imaginou como um grande filme da história do cinema seria se pertencesse a outro gênero? Por exemplo: e se “A Malvada / All About Eve” (1950) fosse uma comédia? Bem, neste caso nem precisa imaginar: “No Entardecer da Vida / Forever Female” (1953) tem muitos pontos em comum com a obra-prima dos bastidores do teatro!
A última peça de Beatrice Page (Ginger Rogers) foi duramente criticada, mas a atriz foi descrita como “radiante” nos jornais. Quem não concorda com isso é o dramaturgo Stanley Krown (William Holden), que, quando perguntado pela própria Beatrice, diz que faltou humildade na atuação da moça. Outra coisa que Stanley e seu agente observam é que Bea era velha demais para interpretar uma moça de 29 anos.
A nova peça de Stanley acaba esquecida numa mesa de restaurante, e o ex-marido e sempre produtor de Bea, Harry Phillips (Paul Douglas) leva o texto para casa para lê-lo. Na manhã seguinte, ele decide produzir a peça de Stanley, mas com uma condição: que o autor mude a idade de uma das protagonistas, uma pianista de 19 anos, para 29 anos, para que assim Bea possa interpretá-la.
Mas quem também quer o papel da jovem pianista é Sally Carver (Pat Crowley), uma atriz iniciante que muda seu nome artístico toda vez que seus negócios não dão certo. Sally fará de tudo para conseguir o papel, e durante seus esforços decide disputar com Bea também o amor de Stanley.
William Holden deveria ter aprendido que ser dramaturgo não é fácil com “Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard” (1950). Holden fez muito mais dramas que comédias durante sua carreira, e mesmo aqui ele é o que tem menos falas e situações cômicas. Juntos, Ginger Rogers e Paul Douglas são excelentes na comédia, e é uma pena que a carreira de Paul Douglas no cinema tenha durado apenas dez anos.
Pat Crowley faz sua estreia no cinema, e por sua atuação ganhou o Globo de Ouro de “Novata mais Promissora”, categoria extinta em 1983. Pat, entretanto, não fez tanto sucesso na tela grande e se dedicou mais às séries de televisão. Pat tinha 20 anos quando fez “No Entardecer da Vida / Forever Female” e é um excelente contraponto a Ginger Rogers, então com 42 anos. Ginger ainda está linda e radiante, mas sabemos como Hollywood e a Broadway funcionam: depois dos 40, os papéis mínguam para as mulheres.
O que impede “No Entardecer da Vida / Forever Female” de estar no mesmo patamar de “A Malvada / All About Eve” é a escolha de misturar romance na história, e fazer dele o novo foco. Vez ou outra, nesta curiosa história de amor, até torcemos por Sally e todas as suas maluquices verdadeiramente apaixonantes.
“Forever Female” é uma grata surpresa na filmografia de seus astros. Divertido na medida certa, sem esquecer o debate sobre como é difícil envelhecer no show business, é um filme do qual você pode nunca ter ouvido falar – mas que merece ser visto.


This is my contribution to The Golden Boy Blogathon, hosted by my friend Virginie at The Wonderful World of Cinema.

sábado, 9 de abril de 2016

Variações sobre um mesmo tema: Papai Pernilongo / Daddy-Long-Legs (1919, 1931 e 1955)

Depois de “Star Wars: O Despertar da Força / Star Wars: The Force Awakens” (2015) e do teaser de “Rogue One” (2016), ficamos nos perguntando: precisamos de mais heroínas no cinema? Sim, claro! Mas colocar mulheres no comando não é novidade no cinema, mas sim a retomada de uma realidade da era do cinema mudo e, claro, de algumas obras inesquecíveis da literatura mundial.
Jerusha 'Judy' Abbott (Mary Pickford / Janet Gaynor) é uma garota esperta e decidida que vive em um orfanato (na versão de Leslie Caron, o nome da personagem é Julie). Ela defende seus amigos mais novos e os anima. A inteligência de Julie chama a atenção do milionário Jervis (ou Jarvis, dependendo da versão) Pendetlon (Mahlon Hamilton / Warner Baxter / Fred Astaire), que decide apadrinhá-la, pagando os estudos dela na faculdade. A única coisa que Jervis pede em troca é que Judy lhe escreva contando como vão os estudos. A menina cumpre com o combinado, endereçando as cartas ao “Papai Pernilongo” (Daddy-Long-Legs), pois a característica mais marcante do tutor são suas longas pernas. Perto de terminar a faculdade, Judy conhece Jervis e se encanta com ele, mas tem de lidar também com seu pretendente, Jimmy McBride (Marshall Neillan / John Arledge / Kelly Brown).
Um pernilongo à esquerda e uma aranha Daddy-Long-Legs à direita
Daddy-Long-Legs”, o livro, foi publicado originalmente em 1912. Há um pequeno prólogo narrativo, e o resto da história se desenrola à nossa frente através das cartas que Judy escreve para seu tutor. A autora, Jean Webster, era sobrinha-neta de Mark Twain, se interessava pelos direitos das mulheres e viajou por muitos países. Em 1914 a história foi adaptada para o teatro e protagonizada por Ruth Chatterton. Em 1916, Jean Webster faleceu, aos 39 anos, devido a complicações no parto.
Daddy-Long-Legs” é leitura obrigatória em muitas escolas norte-americanas. Para os jovens de hoje que tomam contato com a obra a principal dúvida é: a relação entre Judy e Jervis é ou não pedofilia? No começo do livro, Judy tem 17 anos. Em 1919, Mary Pickford tinha 27 anos; em 1931, Janet Gaynor tinha 25 e em 1955, Leslie Caron tinha 24 anos. Jervis Pendetlon teria 20 anos a mais que Judy, portanto, sua idade seria 37. Em 1919, Mahlon Hamilton tinha 39 anos; em 1931, Warner Baxter tinha 42 anos e em 1955 Fred Astaire tinha 56 anos.
A diferença de idade pode ou não ser um tabu. Sempre foi comum que os homens mais velhos se casassem com mulheres mais novas (e no caso de Judy uma abordagem psicológica poderia até argumentar que ela procura em Jervis a figura paterna que nunca teve). Apenas nas últimas décadas foi possível ver casais formados por mulheres mais velhas e homens mais jovens. E o cinema imitava esta realidade.
No cinema, infelizmente até hoje, as mulheres começam a carreira com vinte anos ou menos, atingem o auge por volta dos trinta e aos quarenta já não são mais consideradas para papéis de destaque. Os homens começam a ter sucesso aos 30 e atingem o auge aos 40 ou 50 – e a morte é o limite. As atrizes parecem ter um “prazo de validade”, o que é ridículo, enquanto para os atores, uma vez galãs, sempre galãs.
Assim como sua estrela, o filme de 1919 é adorável. As travessuras da jovem Judy são mostradas com ótimos truques de câmera (incluindo aí a intrincada “visão dupla”) e também um perfeito uso de cartas manuscritas mostradas de vez em quando na tela. Há elegância nos intertítulos e composições, além de muitas metáforas. Mary Pickford foi também roteirista e produtora desta versão.
Na versão de 1931, Judy é a mais velha garota do orfanato, com uma imaginação fértil e muita vontade de tornar a vida das outras crianças menos difícil. Jervis é um homem jovial, que prefere jogar futebol com os meninos do orfanato a participar de reuniões chatas de benfeitoria, e a ideia de mandar Judy para a faculdade não vem dele, mas de uma benfeitora. Aqui está a mais ridícula chefe do orfanato, e também algumas insinuações por parte de Jervis. Janet Gaynor e Warner Baxter, àquela altura, já haviam ganhado um Oscar cada e estão muito bem juntos.
O Jervis de Fred Astaire é um homem muito moderno em uma família conservadora (no livro, Jervis é mostrado como a ovelha negra da família porque era socialista. OMG!). Ele vê a jovem órfã francesa Julie e, encantado com ela, decide adotá-la. Como isso não é possível, ele se contenta em enviá-la para fazer faculdade nos Estados Unidos. Anos depois, e muitas cartas depois, ele a reencontra e eles, obviamente, dançam até um final feliz, começando com o “Sluefoot”, passando por “Something’s Gotta Give” e terminando em um longuíssimo balé de celebração de Carnaval.
Há ainda mais versões da história para o cinema. Em 1935, muitas liberdades foram tomadas em “A Pequena Órfã / Curly Top”, filme estrelando Shirley Temple. Mas Shirley não interpreta o papel equivalente a Judy: este cabe a Rochelle Hudson. As personagens de Shirley e Rochelle são irmãs órfãs que são adotadas por um tutor misterioso, interpretado por John Boles. Além desta, há adaptações feitas na Holanda e na Coreia, além de um anime.
Mary, Janet e Leslie foram escolhidas para protagonizar a história por serem angelicais, mas também capazes de demonstrar força e coragem. Em 1955 o foco da história passou de Judy para Jervis, com modificações importantes. As versões de 1919 e 1931 são muito semelhantes e graciosas, mas a versão muda tem mais sucesso em transportar o romance epistolar para as telas, sem retirar a inteligência e determinação de Judy Abbott.

O Veredicto: As três versões são muito boas. Mas, se você precisar escolher apenas uma, veja o filme de 1919 com Mary Pickford.


This is my contribution to the Beyond the Cover Blogathon, hosted by Beth at Now Voyaging and Kristina at Speakeasy. Happy reading!

sábado, 2 de abril de 2016

Três... Ainda é Bom / Three on a Match (1932)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS.

Durante a Primeira Guerra Mundial, havia a superstição que dizia que, se três pessoas acendessem seus cigarros no mesmo fósforo, uma delas morreria em pouco tempo. Uma justificativa era que um fósforo aceso durante vários segundos chamaria a atenção do exército inimigo, e os três fumantes seriam bombardeados. Mais tarde, descobriu-se que essa superstição era só uma jogada de marketing para vender mais fósforos! Mas este filme da Warner Brothers de 1932 mostra que o melhor mesmo é acreditar nas superstições...
O ano é 1919. Vivian Revere, Mary Keaton e Ruth Westcott estudam juntas na Escola Pública número 62. Vivian é popular, Ruth é aplicada, e Mary desobedece às regras. Seis anos depois, Vivian (Ann Dvorak) está no colégio interno sonhando com romance, Ruth (Bette Davis) estuda datilografia e Mary (Joan Blondell) foi parar em um reformatório. O ano agora é 1930, e as três mulheres se reencontram.
Vivian, apesar de ter uma vida considerada perfeita, está infeliz. Ela tem um marido rico e compreensivo, Robert Kirkwood (Warren William), um filho fofo e vive com luxo e conforto. Mesmo assim, ela confessa ter inveja das ex-colegas, que precisam trabalhar duro para conseguir o que querem.
Deprimida, Vivian vai fazer uma viagem internacional de navio e leva o filho consigo. Mary está no mesmo navio, se despedindo de um amigo. Mary apresenta seus conhecidos a Vivian que, depois de beber e dançar com um deles, Loftus (Lyle Talbot), ela decide que não vai mais viajar. Vivian vai viver com Loftus, e leva seu filho junto. Não vai demorar para que Mary e Ruth interfiram na situação, e tudo fica mais difícil quando criminosos aparecem para cobrar uma dívida de Loftus. Preste atenção: em um pequeno, mas importante, papel como criminoso está Humphrey Bogart!
O filme tem apenas 63 minutos, e o foco é na personagem de Ann Dvorak. Seria interessante, entretanto, haver um aprofundamento na personagem de Joan Blondell, que certamente teria várias nuances e poderia nos surpreender. Bette Davis tem muito pouco a oferecer como a nerd da turma que precisa trabalhar duro e acaba se tornando... babá. Bette ainda estava no início da carreira, sofreu com a antipatia do diretor Mervin LeRoy e, embora tenha trabalhado em vários filmes pre-Code, são suas colegas de cena que ficaram mais associadas com esta época da história do cinema.
Ann Dvorak, recém-saída de sua maior atuação em “Scarface – a Vergonha de uma Nação” (1932), está muito bem como protagonista. O filme funciona, obviamente, como uma lição de moral para as mulheres. Nos pre-Codes, é normal que mulheres casadas e com filhos sejam punidas quando traem o marido e abandonam a família. O mesmo não acontece com as mulheres solteiras que seduzem homens casados, e o exemplo mais contundente disso é Jean Harlow em “Red Headed Woman”, também de 1932.
Muitos filmes pre-Code são escandalosos mesmo para quem os vê no século XXI. “Três... Ainda é Bom / Three on Match”, entretanto, será melhor apreciado se olharmos para ele com a mentalidade de 1932. Há detalhes muito sutis que podem escapar a uma plateia acostumada a receber tudo muito bem explicado (exemplo: no GIF acima, o fato de Ann coçar repetidamente o nariz sugere que ela estava usando drogas. Você percebeu isto?). Outros fatos também ressoam com mais força para o público de 1932, como o sequestro de Junior que lembra o de Charles Lindbergh Jr, e também a própria moral da história de que uma vida boêmia e louca, a la Gatsby, leva à autodestruição. Veja, sim, este filme – mas usando seu cérebro como uma máquina do tempo.


This is my contribution to the Bette Davis Blogathon, hosted by my friend Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

sábado, 26 de março de 2016

Sangue e Areia / Blood and Sand (1922)

Não há dois substantivos que melhor definam as touradas quanto os que Vicente Blasco Ibáñez escolheu para o título de seu famoso romance. Na versão cinematográfica de 1922, as touradas são deixadas em segundo plano e são mais explorados os bastidores da vida do toureiro matador – um ídolo cuja ascensão e queda podem ser tão rápidas e conflituosas quanto ao começo e trágico fim de carreira de um ídolo do cinema dos anos 1920.
O primeiro intertítulo que vemos no filme já é uma condenação à tourada. Ela é descrita como uma “crueldade disfarçada de esporte” e “combate entre o homem e a fera”. Para os espanhóis, “o gosto pela tourada é uma herança da barbárie”. Esta é, sobretudo, uma história de tentação e crueldade, ou seja, um objeto de estudo perfeito para Don Joselito (Charles Belcher).
Juan Gallardo (Rodolfo Valentino) não quer seguir a profissão do pai e se tornar sapateiro. Ele prefere ir para Sevilha se apresentar, ainda que aos farrapos, em touradas amadoras. As aventuras de Juan não agradam nada a sua mãe, irmã e cunhado, e é ao confrontá-los que vemos o grande carisma de Valentino: irreverente, irônico, sem medo de desobedecer à autoridade, Juan vive de acordo com suas próprias regras.
Mas esta rebeldia compensa no dia em que Juan se torna um famoso matador. Ídolo das multidões, herói da arena, rico e admirado. Para a vida ficar mais perfeita ainda, Juan se casa com Carmen (Lila Lee), que conhece desde a infância.
Juan é seduzido por Doña Sol (Nita Naldi), a bela sobrinha viúva de um criador de touros. Apesar de bem-sucedido, Juan é ingênuo e está pouco à vontade no ambiente dos ricos e poderosos. E ele é, ainda, um tolo, porque para Doña Sol ele é apenas mais uma aventura amorosa.
A simbologia destes dois amores se dá, no filme, através de duas flores. O simples ramo de flores que Carmen deu a Juan quando ele ganhou sua primeira grande tourada o lembra do amor puro e sincero da esposa. Logo esta flor é pisada por Doña Sol, que dá então a Juan uma voluptuosa rosa. Ah, o cinema mudo e seus símbolos maravilhosos!
A atenção primorosa ao detalhe está presente em especial na casa de Doña Sol, que contrasta com o ambiente religioso em que Carmen, criada em um convento, reza enquanto o marido enfrenta os touros. Nestas cenas com Nita Naldi a versão muda não deixa nada a desejar, e o luxo até supera o da versão falada, de 1941. Sim, a Doña Sol de Rita Hayworth brilhava como o astro-rei em Technicolor, mas Nita Naldi, a vamp exótica de Nova York, é tão sedutora e atraente quanto Rita.
Quem faz sua estreia como diretora no filme, ainda que sem receber créditos, é Dorothy Arzner. Na verdade, Dorothy era editora do filme, e coube a ela tornar as cenas das touradas realistas para o público. Dorothy, então, intercalou closes e shots de Valentino na arena com cenas de touradas reais para criar o efeito tenso e surpreendente, e foi muito elogiada pelo resultado.
Rodolfo Valentino era charmoso, tinha it, tinha sex appeal e um ar de amante exótico. Eu ainda caio de amores pelo Juan Gallardo que Tyrone Power encarnou em 1941, enquanto apenas tenho vergonha alheia da sobrancelha única de Valentino em 1922. “Sangue e Areia” solidificou Valentino como super-astro, e seus melhores anos ainda estavam por vir. Valentino não apresenta o mesmo desespero da traição que Tyrone Power demonstra ao bagunçar nervosamente os cabelos. Ele tem apenas um decisivo ataque de fúria, e nada mais. O show pertence à Nita Naldi, provocante e deslumbrante.
Sofrência
Há diferenças essenciais entre as versões de 1922 e 1941, que vão muito além do som e do Technicolor. Em 1922 temos dois personagens a mais, o bandido Plumitas e o estudioso do comportamento humano Don Joselito, que já no começo aponta as semelhanças entre o toureiro e o fora-da-lei. O confronto entre Juan, Plumitas e Doña Sol é o auge do filme mudo, que tem bem menos sangue e areia que seu remake.
O cuidado das duas versões nos detalhes é o melhor que elas nos têm a oferecer – cada uma à sua maneira, claro. Isso não impede que possamos apreciar ambas, e ter a rara oportunidade de ver o desabrochar de Rodolfo Valentino como galã.


This is my contribution to the 2nd Annual Rudolph Valentino Blogathon, hosted by  Michele at Timeless Hollywood.

domingo, 13 de março de 2016

Tudo Começou no Trópico / Swing High, Swing Low (1937)

Você gosta de ver duas pessoas se apaixonando, e depois enfrentando os desafios do relacionamento? Eu não gosto, mas mesmo assim dei uma chance a “Tudo Começou no Trópico / Swing High, Swing Low”, de 1937. E sabe por quê? Porque eu adoro analisar representações de países tropicais e seus habitantes em filmes antigos. Normalmente esta representação não é muito lisonjeira, e aqui não foge à regra.
Maggie (Carole Lombard) trabalha como cabeleireira em um navio que está cruzando o canal do Panamá rumo ao Hemisfério Sul. É observando o funcionamento do canal que ela conhece o soldado Skid (Fred MacMurray), que está prestes a pedir dispensa do exército. Quando Maggie e sua amiga chegam na Cidade do Panamá e vão fazer um passeio, o guia turístico que elas encontram é justamente Skid.
A barraca em que Skid as leva para comer lagosta tem ares de cais orientais, como vemos em “O Véu Pintado / The Painted Veil” (1934) e “Mares da China / China Seas” (1935). Quando os panamenses falam espanhol e Maggie não entende, é o diálogo de reclamação dela que se sobrepõe à fala dos nativos. É mais importante ouvir a incompreensão dos norte-americanos do que a língua falada pelos habitantes locais.
Em seguida, Skid e Maggie vão a um bar com música ao vivo, onde ela é importunada por um Anthony Quinn muito jovem, com quem Skid briga. A confusão leva o casal a passar uma noite na cadeia (nas comédias românticas dos anos 30 todo mundo é preso pelo menos uma vez) e, quando são soltos, veem que o navio de Maggie já zarpou.
Morando na cabana tropical rústica de um amigo de Skid, ele e Maggie vão procurar trabalho, e ela logo consegue ocupação para ambos em um clube. Para isto, entretanto, ela precisa mentir que eles são recém-casados.
Skid toca trompete na banda, e Maggie é dançarina no clube. Outra dançarina e cantora é Anita Alvarez (Dorothy Lamour), a estrela do show e antiga namorada de Skid. Logo Maggie e Skid terão uma chance de chegar ao centro do palco quando começarem a compor suas próprias músicas.
Dorothy Lamour sofreu da maldição que todas as mulheres exóticas sofrem em Hollywood: mesmo se nascidas nos Estados Unidos, elas são sempre associadas a pequenos papéis de sedutoras estrangeiras. A própria associação com sedução e pecado começa na escolha do nome artístico de Mary Leta Dorothy Slaton, Miss New Orleans 1931. Sim, a primeira associação é com a palavra francesa “l'amour”, embora outras fontes garantam que Dorothy teria se inspirado no sobrenome de seu padrasto, Lambour, para escolher seu nome artístico.
A carreira de Dorothy foi marcada por um sarongue que ela usou em seu primeiro sucesso como protagonista: “A Princesa da Selva”, de 1936. Papel semelhante de nativa ela teve em “O Furacão” (1937), uma obra subestimada de John Ford, com ótimos efeitos especiais e excelentes atuações. Dorothy também ficou conhecida por atuar ao lado de Bob Hope e Bing Crosby na série de filmes “Road to...”, e até interpretou uma brasileira em “A Caminho do Rio / Road to Rio” (1947).
Apesar de o filme ser previsível, há uma reviravolta perto do final que surpreende positivamente: tendo muito sucesso como trompetista, Skid precisa enfrentar seus velhos vícios no jogo e na bebida. Sua decadência está ligada à figura de Anita, a dançarina femme fatale, e garante bons momentos dramáticos para Fred MacMurray. Quem perdeu com a reviravolta foi Dorothy Lamour e todas as mulheres latinas, desde sempre e talvez para sempre associadas ao pecado e à tentação.
This is my contribution to the Dorothy Lamour Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Maedez at Font and Frock.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Muito além de Rosebud: descobrindo Marion Davies

É sabido que “Cidadão Kane” (1941) foi inspirado na vida do magnata das comunicações William Randolph Hearst. Em certo ponto do filme, Kane toma como amante a cantora sem talento Susan Alexander (Dorothy Comingore), e decide fazer dela uma estrela. Para a posteridade, ficou a impressão de que foi isso que Hearst fez com sua amante, a atriz Marion Davies (cujo órgão sexual era chamado por Hearst exatamente de Rosebud, segundo boatos). Marion era, entretanto, uma talentosa comediante que teve, sim, sua carreira auxiliada por Hearst, mas que com certeza teria sucesso também sem ele.
Marion Cecelia Douras nasceu no Brooklyn e seguiu os passos da irmã mais velha, tornando-se dançarina na adolescência. Logo ela se tornou uma Ziegfeld Girl, e o cinema era seu próximo passo. O filme de estreia, “Runaway, Romany” (1917) foi também escrito por Marion. Apesar de não ter feito muito sucesso com esta primeira empreitada, ela continuou atuando, e “Cecilia of the Pink Roses” (1918) foi o filme que chamou a atenção de Hearst.
Como qualquer magnata apaixonado, Hearst decidiu construir um estúdio de cinema só para Marion. A Cosmopolitan Productions surgiu em 1918, teve seu auge nos anos 20 e se diversificou nos anos 30, quando até John Ford trabalhaou lá. Até 1923 a sede dos estúdios era em Nova York e os sócios de Hearst no empreendimento eram os estúdios Paramount. Entre 1924 e 1934 Hearst se associou à MGM para distribuir os filmes da Cosmopolitan Productions, e a partir de 1934 o novo distribuidor foi a Warner Brothers.
E foi na Cosmopolitan que Marion se aventurou no drama épico pela primeira vez. Seu grande sucesso no gênero veio com “When Knighthood was in Flower” (1922), em que ela interpreta a princesa Mary Tudor, apaixonada por um simples soldado mas atormentada pela sede de poder do irmão, o rei Henrique VIII (Lyn Harding), que insiste em casá-la com o esquelético rei da França. As expressões de Marion em alguns close-ups são preciosas, e a pompa da produção impressiona: são grandes cenários, vistosos figurinos, milhares de extras e uma bela luta de espadas.
Sem dúvida, o melhor filme de Marion Davies, o primeiro que eu vi com ela e a     quele que todos deveriam ver é “Fazendo Fita / Show People” (1928). Nele, Marion interpreta a singela Peggy Pepper, uma moça do interior que vai para Hollywood para se transformar em uma grande atriz dramática. O único emprego que ela consegue, por intermédio de Billy Boone (William Haines) é em uma comédia slapstick ao melhor estilo Keystone Cops. Billy diz que é necessário levar alguns reveses na comédia antes de ter sua grande chance no drama. Não demora para que Peggy seja notada por um grande estúdio, mas quando realiza seu sonho (justamente em um épico ao estilo dos que trouxeram elogios a Marion Davies), ela esquece seus amigos dos velhos tempos da comédia.
Gosto de pensar que a Marion Davies da vida real se assemelhava muito com sua personagem em “Show People”: determinada, vivaz, ótima no drama mas absolutamente fantástica na comédia (tudo o mundo precisa ver as imitações que Marion faz de outras atrizes do cinema mudo em "Filhinha Querida / The Patsy", de 1928). Tanto é que foi à comédia que ela dedicou sua breve carreira no cinema falado.
Em “Cain e Mabel” (1936), Marion é Mabel, uma garçonete transformada em estrela de teatro por um publicitário. Para alavancar ainda mais a carreira de Mabel, ele decide inventar um romance da moça com o pugilista em ascensão Larry Cain (Clark Gable, sem bigode). A primeira interação entre os dois não foi nem um pouco amigável, mas eles precisam continuar se vendo para que o esquema publicitário funcione. Você já sabe o que vai acontecer, não é?
O último filme de Marion, “Ever Since Eve” (1937) tem uma premissa ridícula: Marge (Marion) não consegue um emprego fixo porque é muito bonita e é sempre assediada por seus chefes. Assim, ela prefere se demitir a lutar contra os vermes que a assediam. Quando o escritor Freddy Matthews (Robert Montgomery) anuncia que precisa de uma datilógrafa ghostwriter para ajudá-lo a terminar seu livro, Marge se candidata à vaga, mas vai trabalhar disfarçada para que seu “problema” não se repita. O filme, apesar de tudo, ainda consegue ter bons momentos, em especial as cenas em um restaurante praiano. A comédia sobre dupla identidade funciona bem, apenas o motivo que começa tudo é antiquado e envelheceu mal.
Surpreendentemente, acredita-se que apenas um de seus filmes estja perdido: “The Cinema Murder” (1919). No entanto, relativamente poucos dos 49 títulos de sua filmografia estão disponíveis para o público em DVD ou streaming. É uma lástima que seja tão difícil conhecer os trabalhos desta grande atriz, injustiçada por um mito do cinema, mas que merece toda a admiração dos cinéfilos.

This is my contribution to the Marathon Stars Blogathon, hosted by my friends Virginie and Crystal at The Wonderful World of Cinema and In the Good Old Days of Classic Hollywood.
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