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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

C. Aubrey Smith: o lorde inesquecível

Quando eu tinha 13 anos, meu ator favorito era Robin Williams. Eu adorava a série Mork & Mindy, mas essa não era a principal razão para minha preferência: eu gostava de Robin porque ele nasceu no mesmo dia que eu! Dividir o aniversário com um astro representava muito para mim. E ainda representa, porque, como fã de cinema clássico, é um prazer dividir um bolo no dia 21 de julho com C. Aubrey Smith.
Ele é inconfundível: alto, cabelos brancos e ar aristocrático. Sempre interpretava lordes, militares, juízes ou qualquer outro personagem que inspirasse autoridade. Estudou em Cambridge, começou no teatro aos 30 anos e fez seu primeiro filme com 52. Praticamente desprezado na era muda, encontrou seu lugar como grande coadjuvante nos anos 30. Quem vê Charles Aubrey Smith não consegue esquecê-lo.
C. Aubrey Smith viveu um bocado de aventuras fora das telas: entre as décadas de 1888 e 1889, foi procurar ouro na África do Sul. Entre uma pepita e outra, teve uma mistura de febre tifóide e pneumonia grave, e chegou a ser declarado morto por um médico. Felizmente, para os cinéfilos, ele estava bem vivo! Em Hollywood, sua aventura era um pouco menos perigosa: era capitão do time de críquete das estrelas desde 1932, em que jogavam também Laurence Olivier, David Niven, Nigel Bruce, Leslie Howard e Boris Karloff.

Teve uma infância muito rígida e desenvolveu um estranho medo do barulho de sinos quando criança, pois era obrigado a ir à Igreja todo domingo e detestava esta atividade.
No teatro, ainda no final do século XIX, ele ganhou destaque nos palcos ingleses protagonizando “O Prisioneiro de Zenda”, em um papel duplo. Também participou de “Pigmalião”, seu primeiro sucesso na Broadway. Nada mal para o aristocrata que considerava a atuação uma atividade menor!
Se você gosta de filmes da década de 1930 tanto quanto eu, deve ter percebido que C. Aubrey Smith está em toda parte. Ele é o malfadado pai de Jane (Maureen O'Sullivan) em “Tarzan the Ape Man” (1932), o pai da Imperatriz Catarina II, interpretada por Marlene Dietrich em “The Scarlett Empress” (1934), o pai de Julieta (Norma Shearer) em “Romeu e Julieta / Romeo and Juliet” (1936), o duque sério que tenta controlar Myrna Loy em “Love me Tonight” (1932), o padre da ilha atingida por “O Furacão / The Hurricane” (1937).
Este ator contracenou com algumas das maiores lendas do cinema: Greta Garbo, Katharine Hepburn, Mary Astor, Freddie Bartholomew, Tyrone Power, Clark Gable, Jean Harlow, Marion Davies, Claudette Colbert.... Ele pode ser encontrado em “Cleopatra” (1934), “Ladrão de Alcova / Trouble in Paradise” (1932), “Mares da China” (1935), "Rebecca" (1940), “A ponte de Waterloo” (1940), “Madame Curie” (1943)... são mais de 100 filmes em uma carreira brilhante.
Sua vida pessoal foi ficando mais tranquila com o tempo. De devedor nos tempos pós-mineração, C. Aubrey Smith se tornou um ator, marido e pai respeitável. Casou-se em 1896 com Isobel Mary Scott Wood, com quem ficaria até o fim da vida, e com ela teve sua única filha, Honor.

E olhe que vida pessoal fascinante: C. Aubrey Smith adorava carpintaria, tocar piano e pintar; ajudou nas vigílias dos atores durante a Primeira Guerra Mundial e era um dos melhores amigos de Boris Karloff!
O último trabalho de C. Aubrey Smith foi “Quatro Destinos / Little Women” (1949), em que ele tem ótimas cenas com Margaret O’Brien. Em dezembro de 1948, a pneumonia lhe foi fatal. Em 1944 ele recebeu o título de “Sir” e em 1960 ganhou uma estrela na calçada da fama. Em 1963, serviu de inspiração para o personagem de desenho animado Comandante McBragg. Nunca indicado a prêmio algum por seu trabalho no cinema, C. Aubrey Smith recebe até hoje a maior das homenagens: o carinho e o reconhecimento de quem, assim como eu, tem o prazer de vê-lo atuar sempre tão bem.
This is my contribution to the third annual What a Character! Blogathon, hosted by the three musketeers Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.
Créditos de todas as imagens, excluindo a primeira e a última: ESTE SITE.

sábado, 15 de novembro de 2014

E as Chuvas Chegaram / The Rains Came (1939)

O que alguns astros e estrelas estavam fazendo em 1939, considerado o melhor ano do cinema? Bem, Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland e Leslie Howard filmavam “E o Vento Levou / Gone with the Wind”, Garbo ria em “Ninotchka”, Judy Garland percorria uma estrada de tijolos amarelos e Joan Crawford, Norma Shearer e grande elenco feminino lutava com garras vermelhas em “As Mulheres”. E o que fazia, por exemplo, Myrna Loy? Além de protagonizar mais um filme da série The Thin Man, Myrna ainda teve tempo de ir à Índia (cenográfica, isto é) se envolver com Tyrone Power em “As Chuvas Chegaram”. 
Tyrone Power é o Major Rama Safti, um médico indiano de turbante e bigode. A época das monções se aproxima em Ranchipur e, ao contrário dos aristocratas ingleses, Rama e seu amigo pintor Tom Ransone (George Brent) não pretendem abandonar o local quando a população mais precisa de ajuda. Quem também vai contra a família aristocrata é Fern Simon (Brenda Joyce), uma jovem que pede ajuda a Tom para fugir de casa.
Em uma festa, Tom Ransome encontra uma velha amiga, Edwina Esketh (Myrna Loy), agora casada com um homem velho, gordo, manco e preconceituoso (Nigel Bruce). Há um pouco de romance (não um triângulo amoroso, mas algo muito mais complexo) e muita, muita destruição.
Quem disse que “E o Vento Levou” foi o único épico lançado em 1939? A Fox não poupou despesas para “E as Chuvas Chegaram”, gastando meio milhão de dólares na construção dos cenários (75 mil só para o palácio) e outro meio milhão para as cenas de desastre que são, de fato, impressionantes. Graças a esse esforço, este filme ganhou o primeiro Oscar de Efeitos Especiais da história.
Muitos devem ter lamentado por o filme ser em preto e branco. Não seria maravilhoso ver a exótica Índia em cores? Sim, seria, mas aqui o espetáculo fica por conta da luz e sombra. Perceba como os relâmpagos imprimem o desenho das paredes na parte oposta da sala. Três anos antes de Bette Davis, Myrna protagoniza uma cena sexy com George Brent e um cigarro. A luz se apaga, e o acontece fica por conta de nossa imaginação.
Muito do visual esplêndido pode ser explicado por seu diretor, Clarence Brown, responsável por dois dos mais belos filmes de Greta Garbo: “A Carne e o Diabo / Flesh and the Devil” (1926) e “Anna Karenina” (1935). Clarence, que foi muito influenciado por Maurice Tourneur, consegue fazer de Myrna uma heroína tão bela e sedutora quanto Garbo. Obviamente, o talento da própria Myrna tem grande importância: atriz que começou no cinema mudo, ela não precisa de palavras para nos emocionar, e é em uma cena sem diálogos que ela de fato tem seu melhor momento.
A Índia ainda era possessão inglesa nos anos 30 (o bom e velho Ganshi só viria salvar a pátria em 1948). Muito do colonialismo está presente nas ações dos personagens: por exemplo, não é muito educado ou politicamente correto dizer que vai jogar um empregado para os crocodilos se ele desobedecer. Mas em 1939 isso até era aceitável! E aceitável também era encher atores brancos de maquiagem para que ficassem parecidos com indianos (Tyrone Power e Maria Ouspenskaya foram as vítimas da vez). E repare que o roteiro é construído em cima de um romance entre pessoas de “raças” diferentes!
Vemos um pouco de vários filmes neste: o amor em um lugar exótico de “Terra de Paixão / Red Dust” (1932), a tragédia de “San Francisco” (1936), o sacrifício de uma aristocrata como em “Jezebel” (1938). Apesar dessas semelhanças, é a soma dos fatores que torna “E as Chuvas Chegaram” um filme único. Veja uma, duas, três, quatro vezes. E nunca pare de se maravilhar com a magia que o cinema é capaz de criar.
This is my contribution to the British Empire Blogathon, hosted by Phantom Empires and The Stalking Moon. Tea, anyone?

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Variações sobre um mesmo tema: “Snow White” (1916) e “Blancanieves” (2012)

Branca de Neve foi um dos contos de fada catalogados e publicados pelos irmãos Grimm em 1812. Felizmente, nenhuma versão do cinema foi fiel ao conto original, em que Branca de Neve, com apenas sete anos (!), acaba na floresta com um caçador que deveria matá-la e retirar seus pulmões e o fígado para a madrasta comer (!!). E a madrasta nunca teve um fim tão triste: no conto dos irmãos Grimm, ela é obrigada a calçar sapatos de ferro quente e dançar até a morte (!!!). A Branca de Neve como a conhecemos deve muito à peça da Broadway de 1912, e sua estrela viria a protagonizar uma adorável adaptação para o cinema quatro anos depois.


A Branca de Neve de 1916 conta a história que todos nós conhecemos: a princesa de pele branca, cabelos negros e lábios vermelhos (Marguerite Clark) sofre nas mãos da madrasta (Dorothy Cumming), que possui um espelho mágico. A madrasta manda Branca de Neve para a floresta com um caçador, que deveria matá-la, mas ele se acovarda e liberta a princesa. Branca de Neve, então, encontra a pequena moradia dos sete anões, onde é acolhida com alegria. Mas a madrasta, ao saber que a princesa está viva, tenta envenená-la com um pente (você não leu errado) e depois com uma maçã, entregue aqui por ninguém mais ninguém menos que Richard Barthelmess.

A história é muito familiar porque serviu de base para a animação de 1937. Walter Elias Disney, então com 15 anos, viu o filme nos cinemas (o filme era exibido ao mesmo tempo em quatro telas não-sincronizadas) e ficou muito impressionado. E vemos que muitas coisas foram copiadas do filme mudo, começando pelo espelho mágico que se comunica com rimas. A atriz Marguerite Clark serviu de inspiração para a versão animada de Branca de Neve (a personagem também tem alguns traços de Hedy Lamarr), e preparem-se para uma revelação surpreendente: Marguerite tinha 33 anos em 1916! Sim, como Mary Pickford, ela era uma moça baixinha que pôde interpretar crianças no cinema mesmo depois dos 30.


Blancanieves” é uma releitura espanhola e, posso dizer, feminista do conto de fadas. Carmen é filha de um toureiro, e vai morar com o pai, paralisado depois de um acidente na arena, e com a madrasta Encarna (Marbel Verdú). Encarna manda seu motorista matar a jovem Carmen (Macarena García), mas ela sobrevive, embora perca a memória. Andando pela floresta, Carmen encontra seis anões que têm um ato itinerante como toureiros. Tendo perdido a memória, ela se junta a eles e se torna a grande toureira Blancanieves... até que a rainha descobre que ela está viva, e vocês sabem o que acontece.


Apontado e aplaudido como herdeiro direto de “O Artista” (2011), “Blancanieves” é um filme belíssimo que, como apontaram os críticos, bem poderia ter sido feito pelos grandes cineastas dos anos 20 (F. W. Murnau, Frank Borzage ou Josef Von Sternberg certamente poderiam tê-lo dirigido). E uma curiosidade: apesar de ter sido concebido como um filme mudo à moda antiga, Blancanieves foi filmado em cores e a película foi descolorida digitalmente!

O diretor Pablo Berger aponta como principal influência, surpreendentemente, o diretor Tod Browning. Ele diz que o primeiro filme que viu em um cineclube foi “Monstros / Freaks” (1932), e ficou muito feliz ao descobrir que Browning concebeu a película como um filme mudo, mas teve de fazê-lo com diálogos – o oposto do que Pablo estava prestes a fazer. Ele também revelou que o que o fez continuar com o projeto, que demorou oito anos para ser completado, foi a certeza de que o filme encontraria um público disposto a vê-lo.


Ambas as películas são muito, muito belas. Quem encontra uma cópia bem preservada da Branca de Neve de 1916 não se decepciona, e fica difícil acreditar que aquelas imagens têm quase cem anos. As letras dos intertítulos são um pouco rebuscadas, mas isso não impede a leitura. Quem dá uma chance para Blancanieves não se arrepende, e se surpreende a cada minuto. As duas versões provam que Norma Desmond estava certa: Eles não precisavam de palavras em 1916. Eles tinham rostos! E, felizmente, ainda têm rostos capazes de criar obras-primas silenciosas.

O Veredicto: Tem uma tarde livre? Veja as duas Brancas de Neve!

This is my contribution to the Fairy Tale Blogathon, hosted by enchanted Fritzi at Movies, Silently. Bibidi-bobidi-boo!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Filosofando sobre o blog


Vez ou outra precisamos parar e refletir sobre o que estamos fazendo. Não, não é apenas no Ano Novo que temos que olhar para trás, avaliar e mudar o que não nos agrada. Toda hora é hora de fazer isso. E a fofa Carol Caniato do blog Uma cadeira, por favor me incentivou a fazer esta reflexão sobre meu blog através da TAG One Lovely Blog Award. Sem mais delongas, vamos a “tudo que você queria saber sobre o blog Crítica Retrô mas tinha medo de perguntar”:

#1 Por que decidiu criar um blog e quando começou?

História incrível: decidi criar o blog enquanto fazia uma prova de vestibular. Ou melhor, não decidi criar, mas sim transformar o blog moribundo que eu tinha em um blog só sobre cinema. Durante a prova do vestibular, eu divagava: “um dia eu posso escrever uma coluna no jornal sobre filmes antigos, e essa coluna vai se chamar Crítica Retrô”. Foi então que eu pensei: por que esperar um dia no futuro se eu tenho um blog para fazer isso agora?

#2 Quais benefícios o blog te traz?

Estar na frente do computador me deixou mais próxima das pessoas!  Na vida real, não conhecia pessoas que gostassem de filmes antigos. Na internet, vi que não estou sozinha, e que o nosso fandom está cheio de gente adorável, inteligente e bem-humorada. Conheci online muitos amigos queridos e aprendi demais lendo outros blogs.



#3 Qual é o post mais acessado?

Até julho de 2014, era a crítica de “Gandhi” (1982). Então alguma coisa estranha aconteceu e o post “O Oscar e a surpreendente década de 1950” passou a ter mais de 2500 visualizações por semana. Ainda não sei por quê.

#4 Você usa as redes sociais?

Sim! Uso o Twitter (em inglês), o Facebook (me adiciona!), e o Google+
#5 Como o blog tem evoluído?

Com os tempos, as postagens ficaram maiores e menos frequentes. E isso nem sempre é bom. Vejo que o público da internet prefere textos menores, e atualização constante. Meu público também vem quase exclusivamente dos eventos de blogagens coletivas (blogathons) internacionais. Não sei se isso é bom, mas por enquanto estou satisfeita com os resultados.


#6 Já viveu algum fato importante por causa do blog?

Sim! Meu segundo livro, “Crítica Retrô – Apontamentos de uma Jovem Cinéfila” surgiu do blog, de textos para outros sites e críticas inéditas. Também foi através do blog que fui convidada para escrever para os sites queridos Filmes & Games, Leia Literatura e Ambrosia. Eu também escrevia nos sites Os Cinéfilos e Antes que Ordinárias, mas eles chegaram ao fim. :(
 
Parece que o poodle gostou do livro!

#7 De onde nasce a inspiração para escrever e continuar com o blog?

Dos... filmes. Quantos filmes foram feitos até hoje? Meio milhão? Mais? Menos? E as pessoas na frente e atrás das câmeras, sem as quais os filmes não existiriam? Um blog sobre cinema jamais ficará sem assunto.

#8 O que você tem aprendido a nível pessoal e profissional esse ano?

Pergunta filosófica. Aprendi a aceitar quando as coisas dão errado, aprendi a recomeçar. Aprendi que podemos fazer tudo diferente e seguir um caminho que jamais imaginamos. E aprendi que eu tinha uma visão muito errada de mim na adolescência, e que, no fundo, apesar dos pesares, minha essência nunca mudou, e fico feliz com isso.

#9 Qual é sua frase favorita?

“Seja uma primeira versão de si mesma, e não uma segunda versão de outra pessoa” – Judy Garland

#10 Qual conselho você daria para quem está começando agora no mundo do blogs?

Faça tudo com bom senso. Não procure a fama a qualquer preço e não siga o que os outros blogueiros estão fazendo só porque deu certo para eles. Descubra sua própria voz, seu próprio estilo.

#11 O que os blogs que você vai indicar têm em comum?


São escritos por pessoas que fazem a diferença na blogosfera. Adoro acompanhar vocês, galera!

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Rita Hayworth: a deusa e a femme fatale

Ela nasceu Margarita Carmen Cansino em 1918. Para milhões de pessoas, ela será para sempre Gilda, a protagonista do filme de 1946. Mas Rita Hayworth foi muito mais que a sex symbol que seduziu Glenn Ford no clássico noir. Ela inclusive chegou a dizer que seus relacionamentos haviam falhado porque os homens se apaixonavam por Gilda, mas acordavam com Rita.
Começou como dançarina, formava uma dupla com o pai, professor de dança, e brilhou nas telas pela primeira vez em 1934 (é praticamente impossível vê-la em seu primeiríssimo filme, de 1926). Não tentem encontrar a Rita que todos conhecemos: aos 16 anos, Rita Cansino era uma moça morena com fortes traços latinos. Precisou se “americanizar” para conseguir papéis melhores e não ser estereotipada. Tornou-se ruiva e fez eletrólise nos cabelos para aumentar o tamanho da testa. Estava criada a lenda.
A música e a dança estavam muito presentes nos primeiros sucessos de Rita. Embora ela tenha sido notada pelo grande público pela primeira vez em “Paraíso Infernal / Only Angels Have Wings” (1939), foi com os musicais que alcançou maior prestígio no início da carreira. Teve a honra de dançar com Fred Astaire e Gene Kelly. O próprio Fred disse uma vez que Rita foi sua parceira de dança favorita.
E ela foi, realmente, uma deusa em “Quando os Deuses Amam / Down to Earth” (1947). Rita interpreta Terpsícore, a musa grega da música e da dança. Sua função era inspirar os artistas, mas ela tem uma ideia bem diferente: quer atrapalhar o musical de Danny Miller (Larry Parks), que não está tratando as musas com o devido respeito. Ela convence Mr. Jordan (Roland Culver) e o mensageiro 7013 (Edward Everett Horton) a deixarem-na ir para a Terra, prometendo ajudar Danny. O plano de Terpsícore não é executado, porque ela se apaixona por Danny e ainda consegue o papel principal no musical.
“Down to Earth” não é o melhor musical do mundo. Faltam as músicas que ficam na memória horas, dias, meses após vermos o filme. Alguns momentos são de vergonha extrema (eu não queria ser nenhuma daquelas chorus girls com figurino rosa bizarro). Mas mesmo assim é um filme adorável, graças, principalmente, a Rita Hayworth. É incontestável que ela está realmente divina aqui em Technicolor.
Ela foi femme fatale mais que tudo: “Gilda” (1946), “A Dama de Xangai / The Lady from Shanghay” (1947), “Os amores de Carmen / The Loves of Carmen” (1948) e “Salomé” (1953). Com sua sensualidade, ela sempre levava um homem à ruína ao final desses filmes. E foram muitas as vítimas, incluindo Glenn Ford – mais de uma vez – e o então marido / diretor Orson Welles, na obra-prima noir de 1947.
Mesmo nestes filmes, a música ainda estava presente. Gilda faz o strip-tease comportado e feroz ao som da canção “Put the Blame on Mame”. Como Elsa Bannister, a loira fatal, ela apenas canta “Don’t Kiss Me”, tornando mais fácil o processo de enlouquecimento de Michael O’Hara (Welles) e o marido Arthur (Everett Sloane). A cigana Carmen se exibe em uma taverna. Salomé faz sua dança dos sete véus.
Talvez seja aí que vemos o talento de uma atriz: na capacidade de interpretar uma personagem tão diferente de si de maneira a convencer o público. Acreditamos no poder destruidor de Rita enquanto femme fatale, mas ela também se mostra crível como a dançarina adorável de “Minha Namorada Favorita / My Gal Sal” (1942) ou Vera, que disputa Frank Sinatra com Kim Novak em “Meus Dois Carinhos / Pal Joey” (1957).
Há quem diga que a personagem interpretada por Ava Gardner em “A Condessa Descalça / The Barefoot Contessa” (1954) foi inspirada em Rita. De fato, a personagem María Vargas é uma moça exótica que alcança sucesso no cinema e depois se casa com um nobre. Rita casou-se com o príncipe Aly Khan em 1949 e ficou três anos afastada do cinema.  Há outra lenda, esta mais difícil de ser comprovada, que diz que a Margarita (o drink!) recebeu este nome em homenagem à jovem dançarina que se apresentava uma vez no México. Ah, e outra homenagem: ela foi uma das sexy symbols que serviu de inspiração para criar a personagem Jessica Rabbit.

Na vida pessoal, Rita era quieta, sofria de complexo de inferioridade e lutava contra o vício em álcool. Sonhava com uma família e acreditou que poderia abandonar o cinema depois de seu casamento com o príncipe Aly Khan, mas não foi bem assim. A história de Rita Hayworth talvez tenha sido um conto de fadas sem final feliz. Rita não foi princesa feliz para sempre. Mas foi deusa. E, para chegar a esse patamar, uma dose de sofrimento é, infelizmente, necessária.
This post is part of the “getTV Rita Hayworth Blogathon” hosted by Classic Movie Hub and running during the entire month of October. Please visit getTVschedule to see a full list of Rita Hayworth films airing on the channel this month, and please be sure to visit Classic Movie Hub for a full list of other Blogathon entries.

domingo, 19 de outubro de 2014

Variações sobre um mesmo tema: “O Pássaro Azul” (1918, 1940 e 1976)

Maurice Maeterlinck foi um filósofo belga. Pode parecer estranho que um filósofo tenha deixado como principal legado um conto de fadas, mas, quando conhecemos “O Pássaro Azul”, percebemos que a situação é lógica. Só um filósofo poderia criar uma obra tão poderosa e brilhante sobre o sentido da vida, e foi isto que Maurice fez em 1908, quando escreveu a peça “O Pássaro Azul”, adaptada para o cinema dois anos depois curta-metragem, e servindo de ponto de partida para três longa-metragens aqui discutidos (e também um desenho animado de 2011). Maurice ganhou o Nobel de Literatura em 1911, e atrevo-me a dizer que talvez seu “Pássaro Azul” seja mais bonito e inspirador que “O Pequeno Príncipe”.
Durante a noite, os irmãos Tyltyl e Mytyl são acordados pela fada Berylune, que tem uma missão para eles: encontrar o raro pássaro azul da felicidade. Claro que eles não partem nesta jornada sozinhos: as almas de todas as coisas ao redor também entram na aventura! Tyltyl, que até então gozava do quem pensava que as coisas tinham alma, fica maravilhado ao descobrir a alma do Leite, do Fogo, da Água, do Ar, do Açúcar, da Luz, do Gato e do Cão. Procurando pelo pássaro, eles passam pelo Castelo da Noite, pela casa dos avós das crianças (que já estão mortos!), por um Palácio de Luxos e pela Morada do Tempo.
Passei a maior parte do tempo boquiaberta vendo a versão de 1918. Meus olhos viram poucas coisas tão belas quanto este filme. Maurice Tourneur era um excelente artesão das telas e fez filmes muito bonitos visualmente, mas não seria exagero classificar este “O Pássaro Azul” (1918) como sua obra-prima. São vários os momentos em que as lágrimas poderiam rolar, e destaco aqui um: o reencontro das crianças com seus avós e com os irmãozinhos mortos (são SETE irmãozinhos mortos. Esta é a cena mais importante sobre mortalidade infantil na história do cinema).
Todos os efeitos especiais desenvolvidos de Méliès a D.W. Griffith são usados no filme, e com resultados estupendos. Tudo é crível: as roupas que voam e se ajeitam nas crianças, o jogo de luz e sombra, as mudanças de ambiente. Ajuda muito o fato de Tula Belle (intérprete de Mytyl), Lillian Cook (fada Berylune) e Gertrude McCoy (alma da Luz) serem lindas como anjos. Lillian Cook morreria logo após as filmagens, com apenas 19 anos. Quem também faleceu em 1918 foi John van der Broek, o genial cinegrafista responsável pelo visual mágico do filme (sério, ele merecia o Oscar de Melhor Fotografia!).
A versão de 1940 foi o que sobrou para Shirley Temple depois do sucesso de “O Mágico de Oz” na MGM. Este filme conta inclusive com uma sequência de passagem (abrupta, é bem verdade) das cenas em preto e branco para o Technicolor mágico. Assim, quando Mytyl (Shirley) e Tyltyl (Johnny Russel) são acordados pela fada, é como se eles entrassem em sua terra de Oz particular. Os cenários são maravilhosos e os efeitos especiais, apesar de terem envelhecido pior que os de Oz, são bem utilizados. Mas parece que os gastos foram muitos, porque tivemos um corte nas almas: aqui, os irmãos são acompanhados somente pela Luz (Helen Ericson), pelo cão Tylo (Eddie Collins) e pela gata Tylette (Gale Sondergaard). Também fica de fora a sequência no Castelo da Noite, e no lugar temos árvores iradas.
O que mais me chamou a atenção nesta versão de 1940 é a presença da garotinha Caryll Ann Ekelund, que tenta nascer antes da hora pela terceira vez na sequência do futuro. Este foi o único filme de Caryll. Pouco depois das filmagens, ela morreu queimada em um acidente durante o Halloween.
Bastidores
Em 1976, voltam as almas de todas as coisas, e com acréscimo: agora elas falam em rimas, têm efeitos sonoros e sotaque (porque alguns atores eram soviéticos). Com a volta do Palácio da Noite como cenário, temos a oportunidade de ver críticas pontuais às doenças e às guerras. Isso tudo é muito interessante, mas não chega perto do interesse despertado pelo star cast: Elizabeth Taylor (em QUATRO papéis), Jane Fonda, Ava Gardner e Robert Morley (o rei Luís XVI de “Maria Antonieta”, 1938). Katharine Hepburn e Shirley MacLaine recusaram o convite para fazer parte do elenco.
A melhor parte da versão de 1976 sem dúvida é o ballet do pássaro azul (você não leu errado). Aliás, há bastante música nesta versão, e também um ballet performático abstrato envolvendo o Fogo e a Água. E, embora ninguém tenha morrido logo após o filme, os sets estavam cheios de problemas: George Cukor e toda a equipe foram mandados para filmar na União Soviética. Jane Fonda queria discutir o comunismo com a população local. James Coco, que interpretaria o cachorro, só comia pão e engordou tanto que o figurino não servia mais. Cukor acusou a atriz Cicely Tyson (a gata) de usar vudu para atrapalhar as filmagens.
Do do that voodoo that you do so well...
Os filmes de 1940 e 1976 contam com uma sequência em que as árvores atacam as crianças, o que faz muito sentido, pois o pai de Tyltyl e Mytyl é lenhador. Em 1940, há um incêndio digno de Rhett e Scarlett. Ambos têm efeitos especiais um pouco datados. A versão de 1940, entretanto, conta com cenários maravilhosos, enquanto a de 1976 é mais... campestre. Com exceção de Jane Fonda que, de acordo com um usuário do IMDb, parece “Darth Vader travestido”.
Todas as versões de “O Pássaro Azul” foram um fracasso de bilheteria. Entretanto, todas as pessoas que viram um desses filmes quando crianças se lembram deles com carinho e nostalgia. Fica óbvio que foram produções pensadas para crianças... e também para aquele adulto especial que ainda tem uma criança dentro de si e que sabe que o mais importante na vida pode ser o mais banal.
P.S.: Para uma análise mais profunda e bem-escrita da versão de 1918, leia este post maravilhoso da Nitrate Diva.
This post is my contribution to the Stage to Screen blogathon, hosted by Rosie and Rachel at The Rosebud Cinema and Rachel’s Theatre Reviews.  

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

The D.I. (1957) e o incrível Jack Webb

Ator, produtor, diretor, roteirista. Com este currículo, Jack Webb me fez lembrar Orson Welles. Mas eu nunca havia ouvido falar de Jack Webb, o que me fez pensar que Jack era o Orson Welles dos pobres. Como eu estava enganada! Welles e Web têm muito em comum, além dos diversos papéis em frente e atrás das câmeras: homens durões e sérios, que começaram a carreira no rádio, conquistaram mulheres bonitas, conseguiram sucesso e não cuidaram bem da própria saúde. Welles dirigiu e estrelou seu filme mais conhecido, “Cidadão Kane”. Jack estrelou, dirigiu e também produziu seu filme mais conhecido, “The D.I.” (1957).
O sargento Jim Moore (Jack Webb) treina seu pelotão com disciplina e pulso firme. Não há lugar para moleza entre os soldados! Mas o exemplar recruta Owens (Don Dubbins), quando está sob pressão, não consegue manter o foco e se atrapalha. Isso leva o sargento Moore a gritar muito com Owens & Companhia, e o ponto alto da tirania acontece quando ele obriga todo o pelotão a encontrar uma mosca que Owens matara naquela tarde na praia. A missão? Enterrar a mosca!
Este era apenas o segundo filme dirigido por Jack Webb, mas ele já acumulava grande prestígio. Webb foi um dos atores que se tornou ídolo nos primeiros anos da televisão. O novo meio engatinhava e ele já soube o que fazer para alcançar o sucesso. E Jack trabalhou com o que mais gostava: investigação policial. Foi com o filme “O Demônio da Noite / He Walked by Night” (1948) que ele teve a ideia de criar um programa de rádio (e, depois, de televisão) contando casos verídicos investigados pela polícia de Los Angeles. Pela primeira vez o público poderia se sentir parte da investigação, conhecendo métodos e jargões policiais. No rádio, “Dragnet” durou de 1949 a 1957. Na televisão, de 1951 a 1959.
Jack Webb gostava de duas coisas em suas produções: economia e veracidade. E ele conseguiu ambos neste filme ao contratar marinheiros de verdade para interpretar os colegas de pelotão do recruta Owens. O próprio ator Don Dubbins, intérprete de Owens, tinha um pouco de experiência na frente de batalha cinematográfica: trabalhou como extra nos filmes de guerra “A um passo da eternidade / From Here to Eternity” (1954) e “A Nave da Revolta / The Caine Mutiny” (1954).
Podemos ver que Webb era um excelente diretor com apenas uma cena: o close da boca de um soldado enquanto este fala suas dezenas de tarefas. São muitos os closes neste filme, e também os travellings no alojamento dos soldados. Webb pode não ter inovado tanto nos ângulos de câmera quanto Welles, mas sem dúvida fez um belo trabalho neste drama psicológico.
São muitos os filmes sobre a Marinha. São muitos os filmes com comandantes tiranos. O sargento Jim Moore em muito se parece, por exemplo, com o capitão Morton, interpretado por James Cagney em “Mister Roberts” (1955). E a situação de treinamento para a batalha nas praias lembra muito “Iwo Jima – O Potal da glória / Sands of Iwo Jima” (1949, que também contava com alguns soldados de verdade no elenco). Não há como não associar os sentimentos paternalistas de Moore pelo recruta Owens com o carinho velado que o sargento Stryker (John Wayne) tem pelo recruta Conway (John Agar) no filme de 1949.

As três mulheres do filme merecem atenção: Virginia Gregg rouba a cena como a mãe do recruta Owens. Virginia terminaria a carreira dando voz a outra mãe, bem mais notória: ela dubla Norma Bates em “Psicose III” (1986). Monica Lewis canta uma canção escrita por Ray Conniff, “If'n You Don’t, Somebody Else Will”. A vendedora por quem o sargento Moore se interessa é Jackie Loughery, então esposa de Jack Webb e ex-Miss Estados Unidos. Mas, como em todos os filmes em que a Marinha é tema, o destaque é masculino. E Jack Webb merece todos os créditos pelo sucesso de “The D.I.”  
This is my contribution to the Jack Webb blogathon, hosted by Toby at The Hannibal 8. Yes, sir!

sábado, 11 de outubro de 2014

Alegria e sensualidade: Douglas Fairbanks interpreta Zorro

“Zorro”, em espanhol, significa “raposa”. O autor nova-iorquino Johnston McCulley sabia bem o que estava fazendo quando escolheu o nome de sua criação: o personagem, um quase Robin-Hood hispânico, é de fato esperto como uma raposa. No ano seguinte Douglas Fairbanks mostrou que também era esperto e estrelou o primeiro filme de Zorro, que, além de revolucionar a carreira do ator, ainda gerou uma herança nem sempre agradável para diversos personagens latinos no cinema.
Don Diego Vega (Douglas Fairbanks) acabou de voltar de uma temporada na Espanha. Ele encontra sua Califórnia natal cheia de problemas e, com as ideias modernas adquiridas no Velho Continente, decide fazer justiça com as próprias mãos. Capa, espada, chapéu, máscara, bigode: está pronto o disfarce de Zorro, o defensor dos fracos e oprimidos! O terror dos poderosos! A esperança do povo! O sonho das donzelas! Bem, Zorro pode ser o sonho de qualquer donzela, ao contrário de Don Diego: quando enviado para fazer a corte a Lolita Pulidos (Marguerite de La Motte), ele faz de tudo para parecer um homem bobo e pouco interessante. Ao mesmo tempo, ele prega uma peça em Lolita aparecendo para ela como Zorro, e fazendo-a se apaixonar pelo personagem. Ninguém desconfiaria que o jovem tolo era na verdade o herói corajoso.
Esse é o ingrediente principal de “A Marca do Zorro / The Mark of Zorro” (1920): humor. Outros temperos do filme são a ação e a aventura. Em menos de quinze minutos de projeção, já temos uma luta de espadas de tirar o fôlego entre Zorro e o sargento Gonzales (Noah Beery). A dupla identidade de Don Diego / Zorro não poderia ser explorada de forma mais cômica. O fidalgo preguiçoso tem como única diversão fazer truques com um lenço, mas sua identidade secreta é zombeteira e audaciosa. Zorro provoca os corruptos, tem os mais divertidos meios de sair de uma situação de perigo e termina seus duelos deixando sua marca no oponente. Aos 37 anos, o habilidoso Douglas Fairbanks dispensa dublês para escalar muros e saltar do alto de janelas.
Em “O Filho do Zorro / Don Q Son of Zorro” (1925), Fairbanks faz papel duplo (ou triplo?): Don Diego / Zorro, e o filho de Don Diego, Don Cesar. Este filme, mais longo e com mais aventura, tem um pouco menos de humor e uma dose extra de romance. Isto é facilitado pelo fato de estrelar Mary Astor, então uma adorável starlet de 19 anos. Cesar Vega tem todas as habilidades para conquistar Dolores de Muro (Astor): sabe fazer truques com chicote, luta com espada, toca violão e é toureiro quando necessário. Herdou o charme, a boa aparência e a coragem do pai.
Para impedir que este ótimo cavalheiro conquiste a nobre Dolores, entra em cena o guarda Sebastian (Donald Crisp, também diretor do filme). Acrescente a isso a presença de Jean Hersholt como o calculista Don Fabrique e está feita uma sequência que, se não melhor que a original, mais envolvente. Ambientada na Espanha e baseada no romance “A história de amor de Don Q” (que NADA tinha a ver com Zorro), a história não poderia ser transportada para as telas de um jeito melhor.
Zorro ousado
Quem poderia interpretar o “amante latino” na época do cinema mudo? Somente Douglas Fairbanks. Ele possuía um ótimo físico e grande carisma, e podia muito bem interpretar um latino sem passar vergonha (ou exagerar na maquiagem). Sua imagem aqui é a que cria o estereótipo ao qual os latinos ficariam presos durante décadas: o “Latin lover”. Para o cinema, o sangue latino representa luxúria e espontaneidade. Alegria e sensualidade. Assim, muitos atores que nem eram latinos, por sua pele morena e porte diferenciado, acabaram personificando o “Latin lover” (Rudolf Valentino, por exemplo, era italiano).
E assim Zorro se tornou para sempre sexy. Depois de Fairbanks, Tyrone Power interpretou o personagem no filme de 1940, e Guy Williams o levou para as telas da televisão – isso para citar só os casos mais notáveis. Em “O Pirata” (1948), Gene Kelly toma emprestada a agilidade atlética de Fairbanks e nos faz imaginar: não seria ótimo se Gene tivesse tido a chance de interpretar Zorro? Ele poderia não ser original, mas seria uma bela volta às origens. O primeiro Zorro 100% latino foi Antonio Banderas, em 1998. Novamente, o estereótipo se repetia: irreverente, sensual e corajoso.
Assim como os negros e asiáticos, os latinos são muito mal representados no cinema. Quando não são coadjuvantes de westerns e usam sombreros enormes, são garotas de sotaque engraçado (Carmen Miranda em alguns filmes e Sofía Vergara na série “Modern Family”), são vilões de bigode (“greaser bandit”) ou são as “dark ladies”, moças morenas muito sensuais (Rita Hayworth em “Sangue e Areia”, 1941). Os espanhóis e latinos não são todos assim. Somos uma colcha de retalhos do ponto de vista cultural e de personalidade.
Se não bastassem todas essas influências do Zorro de Fairbanks, ele também tem papel importante na trajetória de outro herói: Batman. Nos quadrinhos, os pais do menino Bruce Wayne foram assassinados depois de uma sessão de “A Marca do Zorro”, de 1920, e o pequeno Bruce presenciou o crime (a primeira história em quadrinhos de Batman saiu em 1939, de modo que o Zorro que o influenciou só pode ser Fairbanks). O próprio disfarce do homem-morcego lembra bastante o justiceiro hispânico.
Quem mais lucrou com “A Marca do Zorro” foi, claro, Douglas Fairbanks. Este primeiríssimo longa-metragem distribuído pela United Artists deu uma nova carreira a Fairbanks, que passou a ser o grande herói e conquistador dos anos 20, interpretando cavaleiros, piratas e até Robin Hood. A influência do personagem foi tamanha que uma cena de “A Marca do Zorro” aparece no filme “O Artista” (2011). Mas, alegrias à parte, é a herança de “Latin lover” de Zorro que ficou com mais força – e menos honradez. 
This is my contribution for the Hollywood’s Hispanic Heritage blogathon, hosted by the muchachas Aurora at Citizen Screen and Kay at Movie Star Makeover. ¡Olé!

sábado, 4 de outubro de 2014

Marie Dressler: fatos rápidos

·      Nasceu em Ontario, Canadá em 9 de novembro de 1868 e faleceu em 28 de julho de 1934. Seu nome de batismo era Leila Marie Koerber.
·     Seu pai era músico e a mãe gostava de apresentar pequenas peças para a comunidade. Aos cinco anos, Leila subiu ao palco pela primeira vez, interpretando um querubim. Entretanto, a cortina do teatro a derrubou, e o riso da plateia causou na criança a primeira impressão de que tinha talento para a comédia.  
·    Juntou-se a um grupo de teatro aos 14 anos, após enviar uma carta pedindo emprego (e mentindo dizendo que tinha 18 anos). Aos 24, estava na Broadway.
·   Copiou o nome Marie Dressler de uma tia, para não usar seu nome verdadeiro, pois o pai a tinha proibido de se juntar ao teatro.
·  Por ser geralmente a mulher mais alta da companhia de teatro, Marie interpretava rainhas (e até reis!) com frequência. Ela faz uma paródia vestida de rainha em “Hollywood Revue of 1929”.
·    No teatro, Marie sempre desenhava e costurava seu figurino, apostando em um visual cômico. Ela também cantava em muitas ocasiões, como pode ser ouvido nessas gravações de 1910.
·  Estreou no cinema em 1914, aos 45 anos, protagonizando “Tillie’s Punctured Romance”, o primeiro longa-metragem de comédia romântica. Deste filme também participaram Charles Chaplin e Mabel Normand.
·      Em 1917, escreveu, dirigiu e estrelou o curta “Fired”.
·  Participou da venda de bônus de guerra com Chaplin e Mary Pickford durante a Primeira Guerra Mundial.
·    De 1918 a 1927, não fez nenhum filme e morou de favor no Ritz Hotel em Nova York. Muitas vezes ela se apresentava no bar do hotel.
Chaplin e Marie no set de "Shoulder Arms" (1918)
·    Ela queria abrir um restaurante em Paris, mas foi convencida por uma astróloga a ficar nos EUA, porque lá Marie teria “sete anos de sorte, começando em 1927”.
·  Sua carreira ressuscitou graças à amiga e roteirista Frances Marion. Conta-se que Frances convidou Marie para voltar às telas em 1927, exatamente no dia em que, segundo algumas fontes, Marie planejava cometer suicídio.
·     Louis B. Mayer adorava Marie e foi um dos grandes incentivadores da retomada de sua carreira.
·    O papel que a levou ao estrelato foi o de Marthy em “Anna Christie” (1930). O público, os críticos e a protagonista Greta Garbo ficaram impressionados com a performance de Marie.
·    Em “O Lírio do Lodo / Min and Bill” (1931), ela interpreta Min, a proprietária de um bar nas docas que quer o melhor para a filha adotiva Nancy (Dorothy Jordan), e é capaz de tudo para ver a menina feliz.
·  Ganhou o Oscar um dia depois de seu aniversário de 63 anos. Quando Marie foi chamada ao palco, o jovem Jackie Cooper, indicado ao Oscar de Melhor Ator com apenas nove anos de idade, estava dormindo no colo de Marie e teve de ser tirado de lá para que ela fosse receber o prêmio.
Foto colorizada
·     Uma de suas mais lembradas performances foi em “Jantar às Oito” (1933), em que tem um diálogo “singelo” com Jean Harlow.
·  Foi eleita por três anos consecutivos a atriz mais popular pelos responsáveis pela bilheteria.
·     Apareceu na capa da revista Time em 7 de agosto de 1933.
·  Publicou duas autobiografias: "The Life Story of an Ugly Duckling: An Autobiographical Fragment in Seven Parts", em 1924, e “My Own Story”, em 1934.
·    Pouco se sabe sobre sua vida pessoal. Em meados dos anos 1890, casou-se com George Hoppert, empregado do teatro onde trabalhava. Com o casamento, Marie se tornou cidadã norte-americana. Um jornal diz que ela teve uma filha, que faleceu ainda criança. Em 1907 ela conheceu o empresário James Dalton, que montou um casamento falso para os dois no ano seguinte. Marie e James viveram juntos até a morte dele em 1921.
·    Sem “porte” para ser uma estrela de cinema, numa Hollywood muito parecida com a atual, em que juventude parece valer mais que qualquer virtude, Marie provou que seu talento valia mais que a aparência e conquistou, merecidamente, o Oscar e as plateias. 
Lionel Barrymore, Marie e Norma Shearer

This is my contribution for the O Canada! Blogathon, hosted by lovely duo Kristina of Speakeasy and Ruth of Silver Screenings. :D


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