sexta-feira, 12 de setembro de 2014

40 motivos por que “O Nascimento de uma Nação” é importante

1- Lillian Gish
2- Griffith se preocupava com direitos autorais.
3- A intenção de Grififth era fazer um filme que criticasse as guerras.
4- Griffith já começou o filme na defensiva (intertítulo adicionado após 1915):
5- É um filme histórico, então podemos esperar cenários incríveis.
6- As roupas de época também são muito charmosas. Olhe este vestido da Mae Marsh (que depois ela doa para a causa sulista).
7- E o Vento Levou? Não, Grififth destruiu Atlanta com estilo 24 anos antes. Repare nas labaredas que botariam medo em Rhett e Scarlett.
8- Amigos lutam de lados opostos e morrem abraçados. Isto é lindo.
9- Efeitos especiais de guerra.
10- Donald Crisp interpreta o General Ulisses S. Grant.
11- Lillian Gish tocando banjo no hospital! Elsie Stoneman >>> Scarlett O'Hara
12- Griffith nos ensina que era muito fácil conseguir falar com o presidente em 1865.
13- E Abraham Lincoln era um presidente muito, muito legal.
14- A sequência do assassinato de Lincoln é estupenda.
15- Joseph Henabery, que interpreta Abraham Lincoln, tem 13 outros papéis no filme. Joseph dirigiu 200 filmes a partir de 1916.
16- Griffith afirma que o filme fala sobre a reconstrução após a Guerra de Secessão, e não tem nada a ver com qualquer situação atual.
17- A primeira hora e meia de filme não é racista. Ele poderia ter parado aí e ainda seria um clássico absoluto.
18- A segunda parte começa com o trecho de um livro escrito pelo então presidente Woodrow Wilson. Ou seja, o próprio presidente tinha ideias racistas.
19- A segunda parte tem como base a peça “The Clansman”, de Thomas Dixon Jr. O autor recebeu 25% da bilheteria do filme, ou seja, ficou milionário. Dixon tinha sido aluno de Woodrow Wilson e organizou a projeção VIP do filme na Casa Branca, feito inédito.
20- A rivalidade entre Norte e Sul se estende no campo amoroso, com as famílias Stoneman, do Norte, e Cameron, do Sul. Emocionante.
21- Griffith mostrou que era um mestre da arte cinematográfica. Veja, por exemplo, este enquadramento:
22- Griffith se preocupou em construir os cenários exatamente como eles eram na época em que se passa a ação.
23- Segundo o filme, a inspiração para fundar a Ku Klux Klan veio quando Ben Cameron (Henry B. Walthall) viu crianças negras serem assustadas por crianças brancas cobertas por um lençol. Mas foi a partir de “O Nascimento de uma Nação” que os membros do grupo passaram a usar este uniforme estilizado.
24- Esquilo!
25- Uma perseguição emocionante nas colinas envolvendo Flora (Mae Marsh) e Gus (Walter Long), com Ben logo atrás.
26- A trilha sonora da versão DVD / YouTube é muito boa.
27- John Ford foi um extra no filme. Ele interpretou o “cavaleiro da Ku Klux Klan com um pedaço de madeira na mão”. Obviamente, é impossível reconhecê-lo.
28- Nem todos os personagens negros são ruins. Os empregados dos Cameron são chamados de “almas fiéis” porque ainda se importam com seus patrões. Mas a gramática deles é péssima. E são atores brancos em blackface. (Menos um ponto para Griffith).
29- Se os negros ficaram fora de controle e tentaram dominar tudo no filme, a culpa foi de um líder maluco, Silas Lynch (George Siegmann).
30- Curiosidade histórica: as cenas de batalha foram filmadas onde hoje ficam os estúdios da Universal.
31- O final tem uma mensagem de paz.
32- Griffith desenvolveu aqui todos os estereótipos usados para personagens negros no cinema. Pensando bem, a dicotomia negros maus contra brancos bons é muito semelhante ao tratamento dos índios malvados no western.
33- Louis B. Mayer conseguiu o direito de exibir o filme na costa Leste e assim começou sua fortuna – sem pagar o que deveria a D. W. Griffith.
34- Este não é o melhor filme de Griffith. Ele ainda refinaria sua arte até chegar ao seu apogeu como diretor. Se você não quiser ficar decepcionado com Griffith, veja “Lírio Partido / Broken Blossoms” (1919).
35- Griffith fez um filme CONTRA a Ku Klux Klan em 1911: “The Rose of Kentucky”.
36- Austin Stoneman (Ralph Lewis) lhe pareceu familiar? Ele foi inspirado no congressista Thaddeus Stevens, interpretado por Tommy Lee Jones em “Lincoln” (2012).
37- O tom racista do filme incentivou cineastas negros a rodarem películas sobre seu povo com um tom mais verdadeiro. Um desses cineastas foi Oscar Micheaux.
38- “O Nascimento de uma Nação” inovou ao contar histórias paralelas, e não apenas uma trama central. Mas não se engane: muitas das técnicas “inovadoras” do filme já tinham sido usadas em “Cabiria” (1914). Elas eram novidade apenas no cinema americano!
39- O filme é produto da sociedade de sua época que, vista com os olhos de 2014, era, sim, retrógrada. Mas não devemos julgar nem mesmo censurar este retrato da história, mas sim aprender com ele.
40- Ninguém deve basear suas ideias e ações em um filme feito há quase cem anos. Sim, “O Nascimento de uma Nação” ajudou a ressuscitar a Ku Klux Klan. Mas se você seguir, nos dias de hoje, o que o filme diz, é melhor procurar um psiquiatra.
“O Nascimento de uma Nação” é um filme racista? Sim. Revolucionou o cinema? Talvez. Sem ele todos os outros filmes não existiriam? Aí já é falar demais. Mas é uma fonte histórica que não merece ser destruída ou esquecida. É uma parte fundamental da história do cinema que, apesar de seus defeitos, não pode ser ignorada.

Para quem tem tempo, coragem e paciência, “O Nascimento de uma Nação” pode ser visto em HD no YouTube.
This is my contribution to The Great Movie Debate Blogathon, hosted by Aurora and Tim at Citizen Screenings and The Cinematic Packrat. Let the debates begin!

domingo, 7 de setembro de 2014

A Epopeia do Jazz / Alexander’s Ragtime Band (1938)

Há cem anos, o mundo passava por uma grande turbulência. Estou me referindo, claro, à Primeira Guerra Mundial, que trouxe imensas mudanças na geopolítica, tecnologia e no mundo das artes. O cinema usou o conflito como pano de fundo em muitos filmes, notadamente na década de 1930, quando outra guerra já estava se desenhando no horizonte. O filme “Alexander's Ragtime Band” tem um momento de guerra tão insignificante que poderia passar sem ele. Isto é, poderia se não fosse baseado na vida e obra do homem que personifica a música americana: Irving Berlin.
Roger Grant (Tyrone Power) é um músico clássico com uma carreira promissora pela frente. Ele usa também seu talento musical para ajudar a banda de seus dois melhores amigos, o pianista e compositor Charlie (Don Ameche) e o percussionista Davey (Jack Haley). Em uma noite em um bar, quando Charlie esqueceu as partituras, a banda acaba pegando emprestada a partitura de “Alexander’s Ragtime Band”, levada até o local pela aspirante a cantora Stella Kirby (Alice Faye). A banda toca, Stella canta, eles são um sucesso estrondoso e Roger passa a ser chamado de Alexander, the leader of the band.
Logo um triângulo amoroso é formado: Alexander, Stella e Charlie. Stella e Alexander têm problemas para admitir que se amam porque, como em outras boas histórias de amor, eles não param de discutir. Como o final feliz só pode ser alcançado depois de 106 minutos, há vários obstáculos para o sucesso da banda e do casal. Um desses obstáculos é a Primeira Guerra Mundial.
O filme começa em San Francisco em 1915. Dois anos depois os Estados Unidos entraram na guerra, e para o front foram Alexander e Davey. A guerra em si é mostrada em uma sequência rápida e ousada de menos de um minuto, porque, felizmente, ninguém volta (muito) ferido. Sim, foi por causa de guerra que muitos relacionamentos e carreiras foram interrompidos, mas a parte mais importante para Alexander foi a que veio antes da guerra: o show musical que ele cria com seus companheiros do exército.
Jack Haley em "Oh how I hate to get up in the morning!"
O compositor Irving Berlin, que assina todas as músicas do filme, também trabalhou em um desses shows formados com o regimento. Esta, aliás, é a única das experiências de Berlin que fazem parte do filme, que foi concebido como uma cinebiografia. A ideia não agradou ao biografado, e ficou decidido que a primeira canção de sucesso de Irving, “Alexander’s Ragtime Band”, seria o ponto de partida para um grande desfile de suas composições.
Ensaio com Irving Berlin ao piano
O ragtime foi um gênero musical que teve seu auge entre 1895 e 1918. O ragtime acabou quando terminou a guerra. Mas, no plano musical, a Primeira Guerra foi benéfica, pois foram os soldados americanos que popularizaram o ragtime na Europa. Na década de 1920, algumas características do ragtime ajudariam a criar o mais americano dos ritmos: o jazz.
E é sobre essa epopeia do jazz que o filme trata com mais afinco. O músico clássico Roger, ao preferir a música popular, é esnobado pelo velho professor Heinrich (Jean Hersholt) e pela tia rica Sophie (Helen Westley). Com o tempo (e o sucesso), Alexander e seu ragtime / jazz / swing começam a ser aceitos pela sociedade, convidados para espetáculos da Broadway e atingem o clímax de popularidade e elegância no Carnegie Hall.
Preste atenção nos dois protagonistas do filme! Não, não estou falando de Tyrone Power e Alice Faye, mas sim das músicas de Irving e dos ótimos coadjuvantes! São quase trinta canções adoráveis, e entre os coadjuvantes que roubam a cena estão Ethel Merman, Jack Haley e um importantíssimo John Carradine. Irving Berlin escreveria dois musicais exclusivamente para Ethel, por quem se encantou durante as filmagens. Jack Haley, às vésperas de viver o homem de lata de “O Mágico de Oz”, é o personagem mais alegre e simpático do filme, e ainda canta “Oh! How I get to get up in the morning”, cantada originalmente pelo próprio Irving Berlin no exército.
Ethel Merman
O filme foi o ápice da carreira de Alice Faye. Ela própria diria que “Alexander’s Ragtime Band” foi o melhor filme que fez (opinião compartilhada pelo diretor Henry King). A moça de beleza única e voz profunda arrancou elogios de Irving Berlin, passou a receber semanalmente centenas de cartas de fãs e seu salário subiu para 2500 dólares por semana. Alice brilharia até sua aposentadoria precoce, em 1945. Dois anos depois, “Alexander's Ragtime Band” voltou aos cinemas, conseguindo uma bilheteria ainda maior que a da estreia em 1938. Um sucesso merecido!

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My favorite movie about World War One <3 font="">

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Feitiço do Rio / Blame it on Rio (1984)

Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Esta é a visão que Hollywood sempre teve do país em que eu vivo: o Brasil. Um lugar muito sensual, com praias, mulheres lindas, muita música, festas religiosas e alguns animais exóticos. Trinta anos atrás, quando Michael Caine visitou o Rio de Janeiro, a ideia era a mesma. Mas as roupas eram mais bregas.
Matthew (Caine) está em São Paulo (repare no sotaque fofo com que eles falam “São Paolo”) com sua família. A esposa dele, Karen (Valerie Harper), vai passar as férias na Bahia, enquanto Matthew, a filha Nikki (Demy Moore), o melhor amigo Victor (Joseph Bologna) e a filha do amigo, Jennifer (Michelle Johnson) vão todos para uma casa no Rio de Janeiro. Victor está no meio do processo de divórcio, Jennifer é uma aspirante a Lolita e Matthew está sem a esposa. Preciso falar o que acontece a seguir?
Bem, em pouco tempo Victor descobre que sua “garotinha” está apaixonada, e fica maluco, agredindo todos os homens que parecem demonstrar interesse por Jennifer. Ele mal imagina o que seu melhor amigo está escondendo...
O filme está cheio dos clichês sul-americanos, apresentando coisas que você NUNCA verá nas cidades brasileiras: casas com flores em todas as paredes, mulheres sem roupa na praia de Ipanema, aves exóticas na sala de estar e um lagarto do tamanho de um jacaré. Outro ponto muito explorado do Brasil, a mistura de religiões, também está presente. Há mães-de-santo que falam inglês perfeitamente e são responsáveis tanto por um casamento na praia quanto por um ritual para atrair a pessoa amada. E não, definitivamente não são todas as festas de casamento no Brasil que terminam com todo mundo correndo nu para o mar.
O Brasil pode parecer o paraíso dos sonhos de qualquer estrangeiro, mas se mostrou um pequeno inferno para as equipes de filmagem. “Blame it on Rio” foi o primeiro filme rodado sob as novas regras do cinema brasileiro, e o diretor Stanley Donen ficou decepcionado com o excesso de burocracia (e, Stanley querido, 30 anos depois nada mudou). Para piorar, a chuva atrapalhou as filmagens (ainda chove muito no verão) e houve atraso na chegada de vários produtos comprados (pontualidade nunca foi nossa maior característica).
"Fruta do conde afrodisíaca"
Michael Caine está muito diferente no filme, desconfortável até. Seus momentos de breve monólogo são muito diferentes do revolucionário “Alfie” (1966) “breaking the fourth wall”. Muitas vezes, suas neuroses (e sua aparência) o aproximam de um personagem de Woody Allen. Pensando bem, este seria um filme que bem poderia ter sido feito por Woody, em um caso irônico de vida (quase) imitando a arte.
Michelle Johnson tinha 17 anos quando fez o filme, o que tornou necessária uma autorização por escrito de seus pais para que ela pudesse mostrar seu (belo) corpo nas telas. Como muitas das atrizes que começam como sex-symbol absoluto (Sue Lyon em “Lolita”, 1962, e Mena Suvari em “Beleza Americana”, 1999), Michelle não teve muitos papéis de destaque, e não aparece em um filme desde 2004. Vendo “Blame it on Rio”, poderíamos pensar que ela teria uma carreira brilhante pela frente, mas foi a outra adolescente, Demi Moore, que conseguiu uma carreira mais sólida e duradoura.
Michelle em foto recente
Como estamos passando as férias no Brasil, não poderiam faltar... brasileiros! Além dos cantores e dançarinos que são apenas extras, há duas presenças importantes made in Brazil: Lupe Gigliotti (1927-2010), atriz e humorista que aparece brevemente no papel da senhora Botega, e o grande José Lewgoy (1920-1983). Lewgoy estudou atuação em Yale e participou de mais de cem filmes, geralmente interpretando vilões. Ele também trabalhou em "Fitzcarraldo" (1982), "O beijo da mulher aranha" (1985) e "Cobra Verde" (1987). Aqui ele é Eduardo Marques, o cicerone de Matthew e Victor no Brasil, e fala inglês com perfeição.

Este foi o último filme dirigido por Stanley Donen (provando que quem começou com “Um dia em Nova York / On th Town” em 1949 pode muito bem terminar a carreira com um fiasco), e em 1985 Donen se divorciou da quarta esposa, Yvette Mimieux, que o incentivou a fazer o filme como um remake da produção francesa “One Wild Moment” (1977). Ah, e para provar que Donen perdeu o talento que tinha com musicais, basta prestar atenção na música-tema, uma pseudo-lambada horrorosa. Mas há um momento musical que faz tudo valer a pena: a inserção de um trecho do filme “Voando para o Rio / Flying Down to Rio” (1933)... Valeu a pena ver um filme tão brega!
This is my contribution for the 1984-a-thon, hosted by Todd at Forgotten Films. Big Brother is watching, and so should you!

sábado, 23 de agosto de 2014

Império do Sol / Empire of the Sun (1987)

Eu estava vendo as notícias semana passada, quando tive uma estranha sensação de déjà vu. O que passava na televisão era a entrega de comida para as vítimas dos bombardeios em Gaza. Fardos e mais fardos de alimentos eram jogados de helicópteros e as pessoas, famintas e desesperadas, corriam para garantir a refeição. Eu tive a sensação de que já havia visto esta cena antes e, como eu nunca estive em uma zona de guerra, concluí que havia visto a cena no cinema. Não demorou para que eu me lembrasse: eram John Malkovich e o pequeno Christian Bale que corriam para pegar os donativos em campo aberto em “Império do Sol”.
Jamie Graham (Christian Bale) é um garoto inglês que está em Xangai com seus pais. A Segunda Guerra Mundial ainda está para chegar àquela parte do mundo, mas isso não significa que haja paz: desde 1937 o Japão e a China estão em guerra. Quando acontece o ataque a Pearl Harbor, os estrangeiros precisam sair da China, mas Jamie é separado de seus pais durante um tumulto na estação de trem. Aconselhado pela mãe desesperada, ele volta para casa e passa alguns dias, mas logo decide se aventurar pelas ruas chinesas...

Nas ruas ele encontra um grupo de soldados americanos, entre eles Basie (John Malkovich). Num primeiro momento, os soldados não querem a companhia do garoto, mas Jamie (apelidado de Jim por Basie) diz que sabe onde há comida para todos. Voltando para sua grande casa, Jim e os soldados são surpreendidos pelos japoneses que ocuparam o local. Jim e Basie são levados para um campo de prisioneiros.
As cenas no campo muitas vezes lembram “Inferno Nº 17 / Stalag 17” (1953), filme de Billy Wilder sobre um campo de prisioneiros de guerra onde, felizmente, não havia nenhuma criança. Mas, se esta criança está destinada a crescer e se tornar o Batman, não há nada a temer, certo? Errado. A experiência como prisioneiro no campo japonês não é fácil para Jim, mas por vezes parece ser parte de uma traumática brincadeira de um garotinho fascinado por aviões que vira o mascote de soldados americanos presos. Ah, e por falar em campo de prisioneiros, aquele que mais influenciou Spielberg para fazer o filme foi o de “A ponte do Rio Kwai” (1957), filme favorito de Steven na infância e cujo diretor, David Lean, estava contratado para dirigir “Império do Sol” antes de Spielberg se juntar ao projeto.
Spielberg usou o tema da guerra em muitas de suas produções. Ele revisitaria a Segunda Guerra Mundial por outro ângulo naquele que é talvez seu mais famoso filme, “A Lista de Schindler / Schindler's List” (1993). A Primeira Guerra é o conflito que muda a vida de homens e animais em “Cavalo de Guerra / War Horse” (2011), filme que conta com a tocante cena de dois soldados de lados opostos que se unem por um momento para salvar o cavalo protagonista.
Pôster polonês
Trabalhar com crianças que se tornariam ícones do cinema também não era novidade para Spielberg. Quem pode se esquecer da mini Drew Barrymore em “ET” (1982)? Aqui Christian Bale, aos 12 anos, tem seu primeiro papel de destaque no cinema, e isso graças à então esposa de Spielberg, a atriz Amy Irving, que contracenava com Christian na minissérie “Anastasia” (1986), e que convenceu Spielberg a chamar o garoto para um teste. Foram mais de 4 mil pequenos atores testados, e fica claro desde o começo que Christian Bale foi a escolha certa.
Bale, Spielberg, Malkovich
Muitas vezes, “Império do Sol” passa despercebido na grande e variada filmografia de Spielberg, mas não deveria. A canção-tema melancólica e bela, “Suo Gân”, é do País de Gales e combina perfeitamente com o filme. Porque, acima de tudo, uma história de guerra é uma história triste, e ninguém passa pela guerra impune. Por isso o próprio Spielberg classificou este como o melhor filme sobre a perda da inocência que ele fez na carreira. Só isso já é motivo suficiente para ver “Império do Sol”. Além, é claro, do meu déjà vu do começo, que mostra como, sempre, a vida imita a arte. Ou seria o contrário?

This is my contribution for the Steven Spielberg blogathon, hosted by Kellee at Outspoken & Freckled, Aurora at Citizen Screenings and Michael at It Rains… You Get Wet.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Resenha: “Na Sala Escura”, de Chico Lopes

Cada novo filme que estreia recebe um parágrafo de sinopse e uma nota, baseada em sabe-se lá qual critério. A boa e velha crítica de cinema reflexiva está quase morta. Digo “quase” porque ela sobrevive nos livros, como neste “Na Sala Escura” de Chico Lopes. Se você quer ir além do simples press-release e explorar artigos longos e cheios de detalhes sobre o melhor do cinema, este livro é para você.
Há um desfile de produções para todos os gostos, de todas as épocas: de Garbo a Herzog, de Hitchcock a Bertolucci, do terror ao cinema nacional, dos épicos aos filmes de ficção científica. E cada capítulo (seria melhor dizer “cada artigo”) se divide em subcapítulos, e lá estamos nós analisando várias obras de David Lean em sequência.
Concordo com muitas coisas que Chico escreve, em especial sobre o esquecimento de algumas estrelas, sobre o novo significado que damos a um filme favorito de infância / juventude quando o vemos mais maduro e, sobretudo, sobre a bestialização do público: em um mercado em que só os lucros importam, não é necessário se dedicar muito para fazer um filme artístico, sendo que um medíocre dá mais lucros. Nas palavras do autor: “[...] tem-se a impressão – que o passar do tempo só confirmou – que o público se tornou uma horda de dementes com um QI de passarinho e uma fúria homicida e auto-punitiva sem limites.” (pág. 115)
Percebeu como o texto é ácido? Isso faz com que em alguns momentos nós discordemos com veemência das opiniões do escritor. Para mim, foi um pouco difícil de engolir o capítulo sobre Hitchcock, em que alguns vilões são analisados sob a óptica psicanalítica e a conclusão é que o tio Charlie (Joseph Cotten em “Sombra de uma Dúvida”, 1943) e Bruno Anthony (Robert Walker em “Pacto Sinistro / Strangers on a Train”, 1951) têm em comum algum tipo de tara sexual!
Quando um livro é formado por artigos escritos em épocas diferentes da vida do autor (e olhe que a opinião de alguém pode mudar em questão de meses ou anos), um problema pode ser a incongruência. Por exemplo: achei estranho Chico falar que tem entre seus filmes favoritos “A ponte de Waterloo” (1940) no começo do livro e, no final, chamá-lo de “lixo sentimental”. Ora, a preferência de um cinéfilo tem razões que a própria razão desconhece!
Conheço Chico Lopes desde sua época pré-Jabuti, e posso dizer que sua escrita é surpreendentemente distinta de sua personalidade. Quem lê o sombrio “O estranho no corredor” ou as partes mais cáusticas deste “Na Sala Escura” pode imaginá-lo como uma pessoa ranzinza e muito séria, muito diferente do verdadeiro senhor sorridente que dava gargalhas ao rever, com o público cinéfilo do Instituto Moreira Salles, as performances de Jack Lemmon. Essa metamorfose literária é, ao mesmo tempo, desconcertante e curiosa.
Livro por dentro: repare no foco de luz que lembra a lente de uma câmera
(o marcador de filme foi por minha conta)
Mas minha leitura não foi feita só de discórdias: também concordei com muitos pontos e fiquei feliz ao ser lembrada de outros. Fui à procura imediata de um dos filmes analisados, “Stroszek” (1973), e me senti satisfeita ao reencontrar Bruno S. e Werner Herzog. Tive vontade de rever dez vezes seguidas “Um corpo que cai / Vertigo” (1958) apenas para apreender todos os detalhes descritos no livro (como houve uma época em que me esqueci da cena “I look up, I look down”?) e me senti transportada novamente para a festa-clímax de “O Leopardo” (1963).
Com prefácio de Ignácio de Loyola Brandão e acabamento perfeito da Editora Penalux, “Na Sala Escura” é um ótimo convite a descobrir, brigar, debater e reviver a paixão pelo cinema. 

domingo, 3 de agosto de 2014

A Caixa Mágica / The Magic Box (1951)

Na minha opinião, o melhor cineasta ainda em atividade é Martin Scorsese. Não apenas porque os filmes dele são de excelente qualidade, mas principalmente porque ele ama os filmes antigos. Scorsese é um admirador e apóia as campanhas de conservação de filmes. Ele tem até uma pequena coluna no site do canal TCM. Scorsese é uma pessoa especial. E o filme que o convenceu a tornar-se cineasta tem de ser mais especial ainda: “A Caixa Mágica”.



Martin fala do filme neste VÍDEO.

Esta é a história do mais desconhecido pioneiro da sétima arte. Qualquer um conhece Méliès, Thomas Edison e os irmãos Lumière, e só os cinéfilos mais dedicados sabem quem foram Segundo de Chomón ou Eadweard Muybridge. Mas o mais obscuro dos pais do cinema ainda é William Friese-Greene (1855 – 1921), que eu mesma desconhecia até ver o filme.


William Friese-Greene revive em flashback sua trajetória. Ele se encontra agora em uma convenção de industriais para decidir o futuro do cinema e ele próprio, um pioneiro no negócio, é desconhecido e incompreendido. Em sua juventude, William (Robert Donat) é um jovem fotógrafo cheio de ideias inovadoras que desagradam seu patrão, Maurice Guttenberg (Frederick Valk). Demitido, William começa seu próprio negócio de fotografia com a esposa Helena (Maria Schell). Mas o sonho do fotógrafo sempre foi outro: dar movimento às imagens.


Ele passa então a se encontrar com John Arthur Roebuck Rudge e a se interessar pelas lanternas mágicas, que eram as avós do cinema (isso não é mostrado no filme) e usavam fotografias capturadas em chapas de vidro, que impediam a adição de movimento. William queria mais, e tirou dinheiro do próprio bolso para construir uma câmera que, finalmente, colocou imagens em movimento, ainda que fossem apenas 8 fotos por segundo (os filmes de hoje projetam 24 imagens por segundo). Quem assiste a essa primeira exibição histórica sem entender nada é um policial interpretado por Laurence Olivier, em uma participação muito especial (atenção: ele é um dos muitos cameos!). Mas a história nos conta algo diferente: sim, Friese-Greene conseguiu colocar imagens em movimento... em 1889, menos de um ano depois de “Roundhay Garden Scene”, de Le Prince, que contava com 10 a 12 imagens por segundo. Le Prince também “filmou” um homem virando uma esquina em 1897, e os negativos foram organizados em um pequeno filme.

Depois de ganhar um prisma da esposa, William decide que seus próximos esforços serão para adicionar cor às imagens em movimento! Quem conta essas desventuras, também em flashback, é a segunda esposa de William. Na vida real, ele desenvolveu o “Biocolour”, mas não foi adiante devido ao bizarro fato de os inventores ingleses do processo “Kinemacolor” terem patenteado os filmes coloridos... Sendo que eles próprios “roubaram” a ideia do falecido Edward Raymond Turner! Mas William lutou nos tribunais e, em 1914, recebeu o “direito” de usar seu sistema Biocolour, que na década seguinte foi melhor desenvolvido por seu filho Claude.
 
Seu nome não está na enciclopédia, papai!
No filme, William Friese-Greene tem todas as características estereotipadas do grande inventor: ele não se conforma com seu pequeno emprego, briga com o chefe cabeça-dura, é um visionário e um sonhador (o chefe chega a perguntar: “Do you think people really want to see moving pictures?”). Ele gasta tudo em seus inventos, mas não recebe o merecido reconhecimento. Ele termina seus dias passando filmes de outras pessoas em pequenos shows de variedades. E tudo isso por um golpe de azar, tão comum aos pioneiros do cinema: o filme de Friese-Greene de 1889 não existe mais. Entretanto, ele conseguiu repetir o experimento em 1910, em uma disputa legal contra Thomas Edison para decidir quem era o inventor do cinematógrafo. William não apenas filmou e projetou as imagens em movimento, mas também o fez com fitas de celulose.


Mas foi Friese-Greene o real, pioneiro inventor do cinema, como ambos o filme e sua família advogam? Não exatamente. É impossível saber quem teve a ideia primeiro, em especial porque muitos documentos foram perdidos e não havia a rapidez das comunicações que temos hoje. Sim, Le Prince filmou em seu jardim em 1888, Edison (mais empresário que inventor) estava fazendo experiências em 1891, e em 1895 os irmãos Lumière faziam a primeira exibição pública de um filme. A verdade é que o cinema tem muitos pais, mas é imperdoável retirar o nome de William Friese-Greene da certidão de nascimento da sétima arte.  


This is my contribution to the British Invaders Blogathon, hosted by Terry Towles Canote from the blog A Shroud of Thoughts. Yes, sir! 
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