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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

“A Mulher do Dia / Woman of the Year” (1942) e a mulher que eu quero ser

Este texto contém spoilers.

Quando somos crianças, nos fazem a pergunta: “o que você quer ser quando crescer”? Acredito que seria mais sensato reformular a questão, e perguntar: “QUEM você quer ser quando crescer”? Sim, respostas absurdas serão inevitáveis, mas tantas outras poderão ser surpreendentes, reveladoras e de muita ajuda no futuro. Ter um modelo, um exemplo a ser seguido, é muito importante na vida de qualquer pessoa. E, se alguém me perguntasse “quem você quer ser quando crescer”, eu responderia: Tess Harding.
Quem é Tess Harding? Tess é a personagem de Katharine Hepburn em “A Mulher do Dia / Woman of the Year” (1942). Tess é uma jornalista muito respeitada da área de relações internacionais. Seu colega da sessão de esportes do jornal New York Chronicle é Sam Craig (Spencer Tracy) que, após ouvir uma entrevista de Tess no rádio, critica os conhecimentos dela sobre esportes em sua coluna no jornal. Tess revida, se inicia uma pequena guerra entre os dois e ela culmina com o primeiro encontro deles na diretoria do jornal. É amor à primeira vista.
Abra bem os olhos para as cenas em que Tess e Sam se beijam, em silhueta, em frente a uma janela iluminada. É uma sequência muito bonita em um filme que tem tudo de lindo. Katharine Hepburn nunca foi capturada tão bela pela câmera. A casa do pai de Tess também é um encanto, e até o campo de beisebol tem seu charme. O amor embeleza tudo no filme.
Tess representa tudo o que eu desejo ser: uma mulher moderna, independente, inteligente, reconhecida por sua inteligência, bem-humorada, charmosa. Tess sabe se portar em meio ao caos, aprende qualquer coisa com rapidez, fala muitos idiomas, e ainda se preocupa com os órfãos. Eu amo o cabelo de Tess, as roupas de Tess (criadas pelo estilista Adrian!), a independência de Tess, o sucesso de Tess, o apartamento de Tess, a vida de Tess.
Há uma cômica inversão de papéis no romance. Sam é atrapalhado, ansioso, inseguro. É o alvo da maioria das piadas, mas é também o personagem central do filme, com destaque desde o início. A carreira de Tess o incomoda, e incomodaria qualquer homem acostumado à velha ordem machista que de uma hora para outra se visse atado a uma fêmea alfa.
Muitas pessoas se sentem incomodadas com os minutos finais do filme, pois acreditam que Tess desiste de tudo que conquistou para se tornar uma dona de casa. Ela até tenta fazer isto, em uma sequência adorável de comédia física, mas o gosto amargo da derrota feminista some logo: eu interpreto que, se o filme tem alguma mensagem, é que Tess não precisa ser a jornalista incrivelmente durona nem a esposa perfeita. Como Sam diz, não precisa ser Tess Harding nem a senhora Craig. Pode ser Tess Harding-Craig, e encontrar um ponto de equilíbrio entre as duas personas tão diferentes.
E é esta a lição mais importante que Tess me ensinou: você não deve fazer só o que quer, mas também não deve deixar a sociedade regular a sua vida. É necessário lutar para conquistar o que se deseja, mas vez ou outra é preciso se deixar moldar um pouco pelo mundo e pelas mudanças. Se tivesse feito apenas o que eu queria ou se tivesse seguido cegamente as ordens de outros, eu não estaria aqui agora. Talvez estivesse melhor, talvez estivesse pior, mas não estaria feliz. Obrigada por ser minha mentora, Tess Harding.

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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Sherlock Holmes (1922)

Sherlock Holmes é um dos personagens literários mais famosos do mundo. Criado por Arthur Conan Doyle em 1887, Holmes foi protagonista de 60 obras do autor e, até o presente momento, de mais de 300 filmes. Começando em 1900, Sherlock se tornou o personagem mais prolífico nas telas, segundo o livro Guinness, e já foi interpretado por mais de 70 atores. O grande John Barrymore interpretou Sherlock Holmes apenas uma vez, em 1922, mas que interpretação!
Temos no filme um elenco primoroso, liderado por John Barrymore. Uma filmagem aérea de Londres. Um professor Moriarty que é a combinação de Abraham Lincoln com o Doutor Caligari. Um Nick Charles embrionário. Cinematografia belíssima. Todos os ingredientes juntos criam uma película imperdível.
Era uma vez um estudante de Cambridge chamado Sherlock Holmes (John Barrymore). Seu amigo Watson (Roland Young) indica-o para resolver um problema que aflige o príncipe Alexis (Reginald Denny): vossa alteza está sendo acusado de roubar dinheiro da sociedade atlética da universidade. Este primeiro caso leva Holmes a se encontrar com o professor Moriarty (Gustav von Seyffertitz, que aterrorizou Mary Pickford em "Sparrows", de 1926), e então nosso amigo Sherlock encontra sua vocação: trabalhar como detetive para livrar o mundo de todo o mal representado por gente como Moriarty, e então se estabelece na 221 Baker Street.
Anos depois, estamos diante do Sherlock Holmes que conhecemos e amamos. O príncipe Alexis se tornou herdeiro do trono, desistiu do casamento com Rose Faulkner (Peggy Bayfield) e agora está sendo chantageado por Moriarty. Holmes não se importa muito com a reputação do príncipe, mas não vai perder a chance de rever Alice Faulkner (Carol Dempster), por quem se apaixonou.
Sherlock apaixonado
O diretor Albert S. Parker não teve como inspiração as histórias originais de Conan Doyle, mas sim uma peça de 1899 escrita e protagonizada por William Gillette, o maior Sherlock Holmes do teatro. Gillette levou a peça para o cinema em 1916, e por muitos anos seu Sherlock cinematográfico foi considerado perdido, mas felizmente o filme foi encontrado e restaurado agora em 2015.
A restauração também faz parte da história do Sherlock de 1922, pois o filme também ficou durante décadas desaparecido. Nos anos 70, uma cópia foi encontrada, mas com os takes fora de ordem. O trabalho de detetive ficou por conta do próprio diretor Albert S. Parker, que instruiu os restauradores sobre a ordem dos takes. Com falhas de memória, Parker morreu antes de o trabalho ser completado, e coube ao historiador Kevin Brownlow reconstruir a película da melhor forma possível. A restauração foi financiada por Hugh Hefner – sim, o editor da revista Playboy.
Se o filme fosse perdido, além da interpretação de Barrymore, o mundo também ficaria para sempre sem ver uma jovem Hedda Hopper em um papel secundário (Madge Larrabee) e seria perdida também a estreia de William Powell no cinema, sem bigode, interpretando um estudante de Cambridge que depois se torna um mordomo. A imagem a seguir, senhores, é a primeira vez que o mundo viu nosso querido Powell:
Ao final, o que temos é um veículo que faz Barrymore brilhar, desde que Sherlock aparece pela primeira vez embaixo de uma árvore, aos oito minutos de projeção. A sequência de Moriarty invadindo a casa de Holmes é orquestrada com muito suspense, mas seu desfecho é rápido demais para a tensão que foi criada (a impressão é de que estariam ainda faltando cenas). Pode ser meio estranho encontrar um estudante universitário de 40 anos de idade, mas Barrymore é um Sherlock Holmes perfeito: alto, elegante, charmoso, inteligente e habilidoso.
Watson (sentado), Holmes (em pé) e uma caveira decorando o ambiente
Se você gosta de Benedict Cumberbatch, Basil Rathbone ou qualquer outro Sherlock da história, perceba como todos eles devem a Barrymore a aura cavalheiresca e intelectual do personagem. William Gillette pode ter introduzido a frase “Elementar, meu caro Watson”, mas foi John Barrymorre, em sua única aventura como Sherlock Holmes, que nos mostrou o que é realmente elementar para incorporar um personagem tão icônico.

"Sherlock Holmes" (1922) está disponível no YouTube.

This is my contribution to the Barrymore Trilogy Blogathon, hosted by Ethel Barrymore connoisseur Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood. 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Zulu (1964)

A história é tão velha quanto a humanidade: um grupo invade o espaço de outro por considerar-se mais evoluído / civilizado. O discurso é de boas intenções, de levar conhecimentos e religião para o povo inferior, mas o choque de culturas é mais forte que qualquer ato de bondade, e explode uma guerra. Vemos isto acontecendo à exaustão nos westerns, em que os homens das carruagens chegam para conquistar a terra dos índios selvagens. Mas este processo aconteceu em toda e qualquer colonização, e não foi diferente com os ingleses e os zulus.
Baseado em fatos reais, “Zulu” mostra uma batalha da Guerra Anglo-Zulu de 1879, que aconteceu no território onde hoje é a África do Sul e que na época era colonizado pelos ingleses. São quatro mil zulus contra algumas centenas de soldados ingleses, comandados pelo tenente John Chard (Stanley Baker) e pelo inexperiente tenente Gonville Bromhead (Michael Caine). Juntam-se a eles o missionário Otto Witt (Jack Hawkins) e sua filha Margareta (Ulla Jacobson), que querem evitar qualquer tipo de violência.
É um filme visualmente belo, que não precisa de efeitos especiais computadorizados para impressionar: o vermelho do uniforme contrasta com a paisagem árida, com a pele dos nativos e com as roupas de algodão cru disponíveis naquele fim de mundo. Torcer pelos nativos é como torcer pela baleia em Moby Dick: quase natural. Afinal, não eram os ingleses os invasores? É provável que o filme tenha sido feito com um grande discurso patriótico por trás, mas para uma estrangeira como eu que o vê com olhos mais críticos, não há motivos para os ingleses se orgulharem de seus antepassados. Embora não haja glamour no massacre, não há também honra, e o personagem mais interessante, embora com pouco tempo em cena, é de fato o missionário de bom coração (observe-o durante as cenas no hospital!).
E se havia guerra nas telas, nos sets de filmagem a situação era igualmente delicada: o filme foi gravado na África do Sul durante o Apartheid, e um incidente envolveu um membro da equipe quase condenado a sete anos de trabalhos forçados por ter se envolvido sexualmente com mulheres negras. Ao final, o Apartheid inclusive impediu os muitos extras zulus de verem a estreia do filme nos cinemas.
Enquanto via “Zulu”, me lembrei de muitos outros filmes: “Uma Aventura na África / The African Queen” (1951), com seus missionários bem-intencionados que se encontram no meio de uma guerra; “A Ponte do Rio Kwai / The Bridge Over the River Kwai” (1957), por ter uma ponte em construção; “Lawrence da Arábia” (1962) pela atitude muitas vezes prepotente do personagem de Michael Caine caçando um leopardo; “E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939), pelo caos em meio ao fogo...
E todos estes filmes em um nos fazem chegar à conclusão: todas as guerras são iguais. Sejam elas travadas com armas, flechas, escudos ou baionetas, o sofrimento e a destruição é sempre igual, ultrapassando fronteiras e barreiras de linguagem. Os rituais antes e depois da batalha, os gritos e hinos de guerra, as perdas no campo de batalha e nos hospitais improvisados são cicatrizes que ficam para sempre na memória dos envolvidos diretamente na guerra e também em seus descendentes. Pode haver honra, admiração mútua entre os combatentes, mas uma coisa é certa, mostrada pelo cinema e confirmada pela história: guerra é sempre guerra.


This is my contribution to the Second Annual British Invaders Blogathon, hosted by my friend Terence at A Shroud of Thoughts. Yes, sir!


quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Caminho do Rio / Road to Rio (1947)

O ano é 1947. Desde 1944 Bing Crosby detinha o título de ator com maior sucesso de bilheteria. Em uma situação muito confortável, ele fez com seus parceiros Bob Hope e Dorothy Lamour o quinto dos sete filmes da série “Road to...”, que misturavam comédia, romance e musical em cenários exóticos. Desta vez os três astros iriam para o Rio de Janeiro, e o resultado, além de um filme divertidíssimo, é a imagem mais fiel do Brasil pintada pela era de ouro de Hollywood.
É como Crosby, junto com as Andrews Sisters, canta sobre o Brasil: não é preciso entender a língua para compreender o que acontece aqui. Bastam a lua, o céu e uma garota nos seus braços. Aí é só olhar fundo nos olhos dela e as palavras serão supérfluas. Mas o riso é garantido.
Scat Sweeney (Bing Crosby) e ‘Hot Lips’ Barton (Bob Hope) estão atrás de mulheres. A busca da dupla já terminou com tiros e homens irados em diversos estados dos Estados Unidos, e a nova empreitada deles também é um fracasso: eles fazem, literalmente, um circo pegar fogo. Na fuga desesperada, eles entram como clandestinos no navio “Queen of Brazil”.
No navio viajam Lucia Maria de Andrade (Dorothy Lamour), sua tia / guardiã / hipnotizadora Catherine Vail (Gale Sondergaard) e mais uma galeria de personagens com alto potencial cômico, incluindo uma banda. Metade do filme se passa neste trajeto que por vezes fica lento, mas nunca cansativo.
Eles são recebidos no Brasil com a mesma música que recebeu o Pato Donald cinco anos antes: “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. A música, só instrumental, sem letra, também acompanha os créditos iniciais, quando os nomes do trio protagonista aparecem dançando sobre a paisagem de Copacabana.
Felizmente, não há os absurdos costumeiros que vemos quando o Brasil é mostrado no cinema de Hollywood. Não há macacos nem papagaios nas ruas e as pessoas não falam espanhol. Bing Crosby, para surpresa geral, pronuncia até muito bem algumas frases em português. É incrível pensar que cenários tão realistas, com a roda de samba, o hotel e a mansão que aparece no final do filme, foram todos construídos nos estúdios Paramount, mas, obviamente, com boa pesquisa prévia. Observe as roupas dos músicos, os instrumentos e até os cartazes em português!
E são os Wiere Brothers, também falando um pouco de português, que roubam a cena. Os três irmãos Wiere nasceram na Europa, durante as muitas viagens teatrais dos pais, e foram para os Estados Unidos na década de 1930, mas fizeram poucos filmes. Os palcos continuaram sendo sua morada.
A maioria das piadas vem de diálogos espirituosos, mas há duas longas sequências mudas: na primeira, Hope e Crosby se passam pelo barbeiro e pelo engraxate do navio, e destroem o bigode de um passageiro; e na segunda há uma confusa troca de chapéus, no melhor estilo comédia pastelão / slapstick comedy.
Talvez “Road to Rio” não seja um filme realmente especial. Mesmo assim, foi o sexto maior sucesso de bilheteria de 1947, arrecadando o equivalente a 4,5 milhões de dólares. É uma comédia excelente, do tipo que não é mais feito na atualidade, e que consegue ser ao mesmo tempo um pouquinho apimentada e inteligentemente inocente. Porque é essa mágica que o Rio de Janeiro fez com Crosby, Hope e Lamour.

This is my contribution to the 1947 blogathon, hosted by Karen at Shadows and Satin and Kristina at Speakeasy. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

Os reis do iê-iê-iê / A Hard Day's Night (1964)

A Hard Day's Night” começa como um dia qualquer na vida do quarteto mais famoso dos anos 60: com os Beatles fugindo de uma multidão de fãs histéricas. Se você é como eu, e a história de um filme é o que mais importa, então pode pôr seu cérebro no modo descanso e aproveitar: o importante aqui é curtir a atração, sem tentar compreender uma história que não faz sentido – ou talvez  faça sentido porque só poderia acontecer nos bastidores do mundo da televisão.
Os Beatles (John, Paul, Ringo e George) vão gravar um programa de televisão. Para chegar aos estúdios eles viajam de trem com seus empresários e levam a tiracolo o avô de Paul McCartney (Wilfrid Brambell), um idoso fora dos padrões... e também muito limpo. A principal função deste avô é criar o caos por onde passa, seduzindo moças, falsificando assinaturas, participando de uma ópera por engano e finalmente fazendo Ringo se rebelar, no melhor estilo Ferris Bueller.
Eles são celebridades muito, muito irreverentes, que fogem das fãs, da imprensa e estão sempre desafiando a autoridade (empresários, diretores de televisão). Esta rebeldia conquistava o público, e sem dúvida fez com que muitos espectadores imaginassem como seria legal ser amigo dos Beatles (mais de 50 anos depois da estreia do filme eu ainda sonho com esta oportunidade). Neste sentido, o filme pode ser visto como a visão dos próprios Beatles sobre a fama: não é possível levar tudo e todos a sério quando se é uma celebridade. E talvez não seja preciso levar tudo e todos a sério em momento algum da vida, mesmo para as pessoas comuns.
O filme consegue ser psicodélico sem precisar de truques de câmera ou de cores ousadas (e se o filme fosse colorido, se aproximaria muito de uma obra de Wes Anderson). Os Beatles se comportam como versões muito jovens dos irmãos Marx, e é impossível perceber todas as piadas, frases espirituosas e situações cômicas vendo o filme pela primeira vez. Apenas múltiplas visitas ao grande sucesso dos Beatles no cinema são capazes de transmitir a qualidade cômica e transgressora da obra. Cada frase distorcida ou resposta malcriada é dita com toda a seriedade por rostos estoicos que dariam orgulho a Buster Keaton. As cenas de perseguição perto do final, aliás, lembram muito os curtas-metragens de Keaton, em especial “Cops” (1922).
Apesar de tanta comédia, o filme é sobretudo um musical feito para mostrar o talento da maior banda do momento. Não apenas durante o show, mas em várias cenas ao ar livre os sucessos dos Beatles podem ser ouvidos, entre eles: “A Hard Day's Night” (obviamente, e que foi composta durante as filmagens), “She Loves You”, “Can't Buy Me Love”, “I Should Have Known Better”, “And I Love Her”, “I Wanna Be Your Man” e “All My Loving”.
Nos anos 60 os jovens estavam se rebelando contra os valores ultrapassados do pós-guerra e ensaiando a mudança no mundo. Se fosse necessário escolher um ícone cultural que representasse este mudança, sem dúvida seriam os Beatles. E nunca eles foram mais rebeldes que neste filme. Apesar de quase todas as músicas falarem de amor, é a rebeldia dos músicos que contrasta e conquista. Até o final de 1964, o filme arrecadou doze milhões de dólares nas bilheterias americanas (seu custo foi de apenas meio milhão). A Beatlemania estava só começando!


This is my contribution to the Beatles Film Blogathon, hosted by Steve at Movie Movie Blog Blog. Twist and Shout!

sábado, 27 de junho de 2015

1928: ao redor do mundo em 80 filmes

O ano de 1928 foi de transição para o mundo do cinema. Todos se perguntavam o que aconteceria após a primeira experiência que integrava imagem e diálogo na tela. Seriam os filmes falados apenas uma moda passageira ou viriam para ficar? Para analisar melhor este ano de metamorfose, vamos olhar um pouco para 80 filmes, feitos em diferentes países e diversas técnicas. Dica: clique nas imagens para vê-las em tamanho muito maior!

América do Sul
Há apenas dois filmes sul-americanos dignos de menção no ano: o brasileiro “Brasa Dormida”, com belos cenários e trama fraca, e o argentino “Alma en Pena”, baseado em um tango de mesmo nome.
França
Da França vieram muitos excelentes filmes, com direito a obras dos diretores Jean Epstein (“A Queda da Casa de Usher”), René Clair (“Um chapéu de palha italiano”), Buñuel (um pequeno filme chamado “Um Cão Andaluz”) e Carl Theodor Dreyer (“A Paixão de Joana D'Arc”, rústico e demasiado humano). Teve também reconstrução de batalha da Primeira Guerra Mundial com “Verdun, visions d'histoire”, adaptação de conto de fadas com “A Pequena Vendedora de Fósforos”, outro curta surrealista chamado “A Estrela do Mar” e o longo drama “L’Argent”.
União Soviética
O bom e velho Eisenstein deu ao mundo o impressionante filme-propaganda “Outubro”, Vsevolod Pudovkin fez o quase épico “Tempestade sobre a Ásia” e Aleksandr Dovzhenko flertou com a fantasia em “Zvenigora”. Mas os soviéticos também se divertiam, e a “Salamandra” é uma sátira aos filmes de propaganda pró-Stalin.


Inglaterra
Três dos quatro filmes mais importantes da Inglaterra em 1928 saíram das mãos de um homenzinho gordo chamado Alfred Hitchcock: “Easy Virtue”, “Champagne” e “The Farmer's Wife”, todos filems mudos. Merece menção também “The Constant Nymph”, estrelado por Ivor Novello e recentemente recuperado em sua totalidade.


Alemanha
Quatro palavras: Fritz Lang, “Espiões”, épico. Além do mestre Lang, a Alemanha viu também o estranho “Sex in Chains”, dirigido e estrelado por William Dieterle, e a animação dadaísta “Ghosts for Breakfast. Foi um ano muito louco para os alemães.


Ásia
Foi um ano produtivo para o cinema chinês: em 1928 estrou “Kick”, primeiro filme de esportes da China, “Patriotic Souls”, historicamente importante por se posicionar contra a dominação japonesa, “Burning of the Red Lotus Temple”, um épico em 19 partes, três das quais estrearam em 1928. Infelizmente, é um filme perdido.

Enquanto isso, na Índia estreava “Khoon-E-Nahak / Murder Must Foul”, a primeira adaptação de Hamlet feita em Bollywood. 


África:
Destacamos “Simba: The King of Beasts”, documentário gravado por um casal americano entre 1924 e 1927 no Quênia.


Lost:
Hora de chorar: estes filmes estão perdidos! Procurem em suas casas, nos sótãos e porões, nas cinematecas e arquivos: você pode encontrar uma fatia preciosa da história do cinema. Entre os filmes perdidos temos dois muito elogiados, “4 Devils” e “The Patriot”, o filme com as únicas imagens de Clara Bow em cores, “Red Hair”, e um pouquinho de Mary Astor, Norma Shearer, Greta Garbo e Gary Cooper. E nem Tarzan escapou.

HOLLYWOOD!

Talkies:

Nasce o cinema 100% falado com “Lights of New York”. William Powell fala em “Interference”. Al Jolson tem com “The Singing Fool” o segundo maior sucesso de bilheteria do ano. O primeiro western falado, “In Old Arizona”, é indicado ao Oscar. E a MGM dá voz a seus filmes com “White Shadows in the South Seas”, meio mudo, meio falado.





Curtas-metragens:
Porque a diversão pode vir em pequenas doses. Tivemos muito Laurel e Hardy, Ben Turpin, Oswald, o coelho sortudo, e uma jovem Carole Lombard.


Estreias
Eles chegaram timidamente em 1928, e se tornariam favoritos das plateias nos anos seguintes. 1928 foi o ano de estreia de: Humphrey Bogart (no curta sonoro “The Dancing Town”), Jean Harlow (“Moran of the Marines”), Randolph Scott (“Sharp Shooters”) e um camundongo chamado Mickey Mouse (“Steamboat Willie”).



Mestres da Comédia
Charles Chaplin, Harold Llloyd e DOIS filmes de Buster Keaton! Aliás, foi um filme de Keaton, “O Homem das Novidades / The Cameraman” o grande vencedor da enquete do blog: nossos leitores de bom gosto acham que esta amável comédia é o melhor filme de 1928!


E muitos outros filmes foram feitos em Hollywood. Todos os listados a seguir são mudos, com exceção de “Solidão / Lonesome”, fantástico e singelo trabalho de Paul Fejós, e “Arca de Noé”. Ambos têm pequenas sequências faladas.
Hollywood em 1928 tinha Garbo, Gish, John Gilbert, D.W. Griffith, Gloria Swanson, Janet Gaynor, Conrad Veidt, John Ford (que pela primeira vez dirigiu John Wayne em “Mother Machree”), Lon Chaney (cujo filme “West of Zanzibar” foi o maior sucesso de bilheteria do ano) e muito, muito mais. Qual seu favorito?



This is my mammoth contribution to the Classic Movie History Project Blogathon, hosted by the trio Fritzi, Aurora and Ruth at Movies, Silently, Once Upon a Screen and Silver Screenings

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A Dama de Xangai / The Lady from Shanghai (1947)

Era a noite de Natal de 2009. A única fonte de luz na sala escura era a tela da televisão. Foi então que eu vi um filme que me marcou profundamente, cujos diálogos e imagens continuam vivos, perfeitos, em minha mente, mesmo eu nunca mais tendo visto o filme novamente. Que obra me causou tamanha impressão? Aquela que considero a obra-prima de Orson Welles, o cineasta que foi de menino prodígio a maldito em uma só encarnação: “A Dama de Xangai”, de 1947.


Em um podcast presente no curso “Into the Darkness: Investigating Film Noir”, o professor Richard L. Edwards e seu convidado chamam 1947 de “o ano do suicídio no cinema”. Não, nenhum artista / diretor se matou naquele ano, felizmente. O argumento é que o ano já começou com um personagem inesquecível que imagina como seria o mundo sem ele em “A Felicidade não se Compra / It’s a Wonderful Life”, e os cadáveres se amontoam em outras tantas produções do ano – em especial em filmes noir como “A Dama de Xangai”.
Além de dirigir, Orson Welles interpreta o protagonista Michael O'Hara. Ele é um irlandês à procura de emprego que acaba contratado pelo advogado manco Arthur Bannister (Everett Sloane), após Michael salvar a jovem esposa de Arthur, Elsa (Rita Hayworth), de um assalto. A partir daí, uma trama de assassinato e luxúria se desenrola.
Uma das minhas cenas favoritas no filme cita o Brasil, e eu fiquei em êxtase quando isso aconteceu. É raro uma citação séria e profunda sobre este país tropical e caliente, mas encontramos isso no filme graças a um episódio interessante da história: em 1942, Orson Welles passou um tempo no Brasil filmando um documentário, “It's All True”, que nunca ficou pronto. Ele esteve em Fortaleza, e de lá tirou uma anedota perfeita para “A Dama de Xangai”. A anedota gira em torno de dezenas de tubarões que enlouquecem e começam a comer uns aos outros. Fascinante e premonitório.


Outra cena inesquecível envolve Arthur Bannister em um julgamento... usando ele mesmo como testemunha. Aqui não importam os argumentos, as perguntas, os diálogos: a cena existe apenas para mostrar a confusão deliciosa da justiça no mundo do filme noir (e, por que não?, no mundo real também) e é a situação ridícula ao extremo (sequer o juiz parecia interessado no caso)
Mas a cena mais memorável ainda é a do clímax, que acontece em uma sala de espelhos em um circo itinerante. A fotografia da sequência é de tirar o fôlego, e em muitos momentos chama mais atenção que a própria ação. Os personagens se confundem e se multiplicam na sala de espelhos, formando um quebra-cabeça tão fascinante quanto a trama do filme (Welles se inspirou em “O Gabinete do Doutor Caligari”, 1919, para criar o cenário, e contou com ajuda do especialista em efeitos especiais Lawrence W. Butler, que trabalhou em “O Ladrão de Bagdá”, de 1940). O que estraga um pouco a cena (e eu só percebi após rever a cena múltiplas vezes) é a trilha sonora assustadora e pesada que começa quando tiros são disparados. A sequência teria ficado melhor sem música, apenas com o som dos tiros, e Orson Welles concordava com isso: o ator / diretor ficou furioso com a trilha sonora escolhida para a cena!



“A Dama de Xangai” é um filme de Orson Welles. Isso significa que a filmagem foi conturbada (com direito a alugar o iate de um sempre bêbado Errol Flynn no México), o filme ficou longo demais (155 minutos no corte de Welles), o estúdio fez muitas alterações na sala de edição e as plateias americanas não gostaram muito do resultado, enquanto os europeus adoraram. Mas, sendo um filme de Welles, pode esperar que, ainda mutilado, tenha indícios de obra-prima. Ao final, “A Dama de Xangai” se transformou nisto: uma soma de cenas memoráveis em um filme noir que, apesar de tudo, não deixa de ser brilhante. 

This is my contribution to the “…And Scene!” Blogathon, hosted by Sister Celluloid! And Cut!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Beija-me, idiota / Kiss me, stupid (1964)

No dia de Natal de 1964 estreava o filme mais ousado de Billy Wilder. O diretor desafiava os limites do Código de Decência e questionava até onde alguém iria em busca do sucesso. Em uma trama digna de Norma Desmond, os protagonistas são interioranos nada simplórios que buscam sucesso a qualquer preço. No final, nada saiu como Wilder queria. Mas isso não significa que o filme não é esplêndido...
Orville J. Spooner (Ray Walston) é um professor de piano e compositor da pequena cidade de Climax, nos arredores de Las Vegas. Um bocado obsessivo, ele morre de ciúmes da esposa, Zelda (Felicia Farr) e acredita que todos estão conspirando para que ela o traia. O único homem de quem ele não suspeita é Barney Millsap (Cliff Osmond), frentista que é seu amigo e escreve a letra para as músicas que Orville compõe. E é Barney que atende um cliente famoso no posto de gasolina: o cantor Dino (Dean Martin), de passagem rápida pela cidade. Vendo que essa é a grande chance da dupla, Barney estraga o carro de Dino de propósito, obrigando-o a ficar na cidade por uma noite, na casa de Orville.
O problema é que Dino é um conhecido mulherengo. Não querendo desperdiçar sua grande chance, mas também sem querer perder a esposa, Orville arma um plano para fazer Zelda passar a noite fora. Para saciar a loucura de Dino, Barney decide trazer a garçonete Polly “a Pistola” (Kim Novak) e apresentá-la como esposa de Orville. Ufa! Um plano que tem tudo para dar errado.
Billy Wilder havia idealizado o filme com um elenco diferente: Jack Lemmon como Orville, mas Lemmon tinha outros compromissos. Adicione a isso outra mudança de última hora: Peter Sellers havia sido escalado para o papel principal, mas sofreu um ataque cardíaco no meio das filmagens. Ele foi afastado e Ray Walston ficou com o papel. Mas quem é Ray Walston? Esquecido hoje, Walston era, em 1964, um ator de 50 anos que protagonizava a série de TV “Meu Marciano Favorito”, e que teve um pequeno mas memorável papel em “Se Meu Apartamento Falasse / The Apartment” (1960).
O Orville de Ray Walston é um personagem interessante, cujo maior trunfo é fazer os espectadores se perguntarem: “por que Zelda quis se casar com este homem feio e ciumento?”. Tal pergunta jamais seria feita se Jack Lemmon fosse o protagonista, pois mesmo louco de ciúmes Lemmon tem um encanto pueril. Por isso, apesar de Orville ser o centro da ação, são as atrizes da troca que têm as melhores interpretações. Felicia Farr, esposa de Jack Lemmon na vida real, tem em “Beija-me, Idiota” um dos melhores papéis da carreira (sendo o outro em “Galante e Sanguinário / 3:10 to Yuma”, 1957) e mostra seu talento através de uma mudança repentina em Zelda. E Kim Novak, como Polly, nunca esteve tão provocante em tela. E é um estilo diferente do provocante de “Vertigo”: Polly é sexy e vulgar, mas uma gripe terrível a faz fanhosa e atrapalhada. Ela aceita se passar por Zelda por causa do dinheiro, mas nem por isso se prostituiria para Dino. Mais tarde, Wilder definiu Novak como uma atriz que combinava as qualidades de Monroe e Dietrich. O contraste e as semelhanças entre Polly e Zelda são dignas de serem exploradas mais a fundo.
Dean Martin dá vida a uma paródia de si mesmo (o carro sabotado pela dupla é de fato o carro de Martin, e Dino era o apelido real de Dean Martin, e até hoje fãs se referem a ele assim) e inclusive se deixa filmar em um concerto em Las Vegas para a cena que abre o filme. Sendo um filme sobre música (bem lá no fundo, é verdade), as canções teriam de ser memoráveis – fossem elas muito boas ou muito ruins. É impossível não rir com a bizarrice de “I’m a Poached Egg”, decorar o refrão de “Sophia” e se sentir mais leve com a adorável “All the Livelong Day”. São três canções dos irmãos Gershwin, que emplacam sucessos inéditos mesmo 26 anos após a morte de George. Wilder tirou Ira Gershwin da aposentadoria e o letrista se comprometeu a colocar letras em melodias inacabadas ou nunca utilizadas de seu irmão George. Outro ídolo dos musicais também teve uma pequena participação: Gene Kelly, grande amigo de Wilder, estava visitando o estúdio quando foi convidado para coreografar uma pequena dança entre Orville e Polly, que acontece perto do final.

Atenção para a surpresa: “Beija-me, idiota” é remake de um filme italiano de 1952, “Esposa por uma Noite”, estrelado por Gina Lollobrigida. “Remake” talvez não seja a palavra correta, pois há apenas duas coisas em comum entre os filmes: o fato de o protagonista ser um compositor interesseiro e o tema da infidelidade ser tratado com humor.
Wilder sabia que seu filme teria problemas com a censura. O questionamento principal, ainda que tratado comicamente, era: é válido vender a sua mulher (ainda que ela seja uma impostora), a si mesmo e a sua honra para conseguir sucesso? Preparado para lutar por seu filme, Wilder viu “Beija-me, idiota” ser aprovado sem problemas pelo Production Code Administration, que já não ligava muito para a tal decência que os filmes deveriam ter. Mas quem barrou a película foi a Legião de Decência (que muito criticou “Quanto mais quente melhor / Some like it hot”), e, em parte graças a essa condenação (que obrigou algumas cenas a serem refilmadas), o filme foi um fracasso de bilheteria. O público ainda não estava preparado para este lado de Billy Wilder.
O filme fracassou nos Estados Unidos, mas foi aplaudido pelos mais perspicazes europeus. As comédias de Wilder jamais foram filmes alegres, porque sempre trataram do ridículo da vida real. O público de 1964 não gostou de se identificar com personagens moralmente ambíguos, pois “Beija-me, idiota”, é completamente verossímil. Wilder, acusado de destruir a família tradicional, mais tarde atribuiu o fracasso à uma falta de polimento em todos os aspectos do filme. Não se culpe, Sr. Wilder: sabemos que você só estava muito à frente do seu tempo.

Mais informações sobre a produção do filme podem ser encontradas no imenso livro “Billy Wilder – Vida e Época de uma Cineasta”, de Ed Sikov.

This is my contribution to the Second Annual Billy Wilder Blogathon, hosted by Cuban-Irish duo Aurora at Citizen Screen and Kellee at Outspoken & Freckled .



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