quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Resenha: “Na Sala Escura”, de Chico Lopes

Cada novo filme que estreia recebe um parágrafo de sinopse e uma nota, baseada em sabe-se lá qual critério. A boa e velha crítica de cinema reflexiva está quase morta. Digo “quase” porque ela sobrevive nos livros, como neste “Na Sala Escura” de Chico Lopes. Se você quer ir além do simples press-release e explorar artigos longos e cheios de detalhes sobre o melhor do cinema, este livro é para você.
Há um desfile de produções para todos os gostos, de todas as épocas: de Garbo a Herzog, de Hitchcock a Bertolucci, do terror ao cinema nacional, dos épicos aos filmes de ficção científica. E cada capítulo (seria melhor dizer “cada artigo”) se divide em subcapítulos, e lá estamos nós analisando várias obras de David Lean em sequência.
Concordo com muitas coisas que Chico escreve, em especial sobre o esquecimento de algumas estrelas, sobre o novo significado que damos a um filme favorito de infância / juventude quando o vemos mais maduro e, sobretudo, sobre a bestialização do público: em um mercado em que só os lucros importam, não é necessário se dedicar muito para fazer um filme artístico, sendo que um medíocre dá mais lucros. Nas palavras do autor: “[...] tem-se a impressão – que o passar do tempo só confirmou – que o público se tornou uma horda de dementes com um QI de passarinho e uma fúria homicida e auto-punitiva sem limites.” (pág. 115)
Percebeu como o texto é ácido? Isso faz com que em alguns momentos nós discordemos com veemência das opiniões do escritor. Para mim, foi um pouco difícil de engolir o capítulo sobre Hitchcock, em que alguns vilões são analisados sob a óptica psicanalítica e a conclusão é que o tio Charlie (Joseph Cotten em “Sombra de uma Dúvida”, 1943) e Bruno Anthony (Robert Walker em “Pacto Sinistro / Strangers on a Train”, 1951) têm em comum algum tipo de tara sexual!
Quando um livro é formado por artigos escritos em épocas diferentes da vida do autor (e olhe que a opinião de alguém pode mudar em questão de meses ou anos), um problema pode ser a incongruência. Por exemplo: achei estranho Chico falar que tem entre seus filmes favoritos “A ponte de Waterloo” (1940) no começo do livro e, no final, chamá-lo de “lixo sentimental”. Ora, a preferência de um cinéfilo tem razões que a própria razão desconhece!
Conheço Chico Lopes desde sua época pré-Jabuti, e posso dizer que sua escrita é surpreendentemente distinta de sua personalidade. Quem lê o sombrio “O estranho no corredor” ou as partes mais cáusticas deste “Na Sala Escura” pode imaginá-lo como uma pessoa ranzinza e muito séria, muito diferente do verdadeiro senhor sorridente que dava gargalhas ao rever, com o público cinéfilo do Instituto Moreira Salles, as performances de Jack Lemmon. Essa metamorfose literária é, ao mesmo tempo, desconcertante e curiosa.
Livro por dentro: repare no foco de luz que lembra a lente de uma câmera
(o marcador de filme foi por minha conta)
Mas minha leitura não foi feita só de discórdias: também concordei com muitos pontos e fiquei feliz ao ser lembrada de outros. Fui à procura imediata de um dos filmes analisados, “Stroszek” (1973), e me senti satisfeita ao reencontrar Bruno S. e Werner Herzog. Tive vontade de rever dez vezes seguidas “Um corpo que cai / Vertigo” (1958) apenas para apreender todos os detalhes descritos no livro (como houve uma época em que me esqueci da cena “I look up, I look down”?) e me senti transportada novamente para a festa-clímax de “O Leopardo” (1963).
Com prefácio de Ignácio de Loyola Brandão e acabamento perfeito da Editora Penalux, “Na Sala Escura” é um ótimo convite a descobrir, brigar, debater e reviver a paixão pelo cinema. 

domingo, 3 de agosto de 2014

A Caixa Mágica / The Magic Box (1951)

Na minha opinião, o melhor cineasta ainda em atividade é Martin Scorsese. Não apenas porque os filmes dele são de excelente qualidade, mas principalmente porque ele ama os filmes antigos. Scorsese é um admirador e apóia as campanhas de conservação de filmes. Ele tem até uma pequena coluna no site do canal TCM. Scorsese é uma pessoa especial. E o filme que o convenceu a tornar-se cineasta tem de ser mais especial ainda: “A Caixa Mágica”.



Martin fala do filme neste VÍDEO.

Esta é a história do mais desconhecido pioneiro da sétima arte. Qualquer um conhece Méliès, Thomas Edison e os irmãos Lumière, e só os cinéfilos mais dedicados sabem quem foram Segundo de Chomón ou Eadweard Muybridge. Mas o mais obscuro dos pais do cinema ainda é William Friese-Greene (1855 – 1921), que eu mesma desconhecia até ver o filme.


William Friese-Greene revive em flashback sua trajetória. Ele se encontra agora em uma convenção de industriais para decidir o futuro do cinema e ele próprio, um pioneiro no negócio, é desconhecido e incompreendido. Em sua juventude, William (Robert Donat) é um jovem fotógrafo cheio de ideias inovadoras que desagradam seu patrão, Maurice Guttenberg (Frederick Valk). Demitido, William começa seu próprio negócio de fotografia com a esposa Helena (Maria Schell). Mas o sonho do fotógrafo sempre foi outro: dar movimento às imagens.


Ele passa então a se encontrar com John Arthur Roebuck Rudge e a se interessar pelas lanternas mágicas, que eram as avós do cinema (isso não é mostrado no filme) e usavam fotografias capturadas em chapas de vidro, que impediam a adição de movimento. William queria mais, e tirou dinheiro do próprio bolso para construir uma câmera que, finalmente, colocou imagens em movimento, ainda que fossem apenas 8 fotos por segundo (os filmes de hoje projetam 24 imagens por segundo). Quem assiste a essa primeira exibição histórica sem entender nada é um policial interpretado por Laurence Olivier, em uma participação muito especial (atenção: ele é um dos muitos cameos!). Mas a história nos conta algo diferente: sim, Friese-Greene conseguiu colocar imagens em movimento... em 1889, menos de um ano depois de “Roundhay Garden Scene”, de Le Prince, que contava com 10 a 12 imagens por segundo. Le Prince também “filmou” um homem virando uma esquina em 1897, e os negativos foram organizados em um pequeno filme.

Depois de ganhar um prisma da esposa, William decide que seus próximos esforços serão para adicionar cor às imagens em movimento! Quem conta essas desventuras, também em flashback, é a segunda esposa de William. Na vida real, ele desenvolveu o “Biocolour”, mas não foi adiante devido ao bizarro fato de os inventores ingleses do processo “Kinemacolor” terem patenteado os filmes coloridos... Sendo que eles próprios “roubaram” a ideia do falecido Edward Raymond Turner! Mas William lutou nos tribunais e, em 1914, recebeu o “direito” de usar seu sistema Biocolour, que na década seguinte foi melhor desenvolvido por seu filho Claude.
 
Seu nome não está na enciclopédia, papai!
No filme, William Friese-Greene tem todas as características estereotipadas do grande inventor: ele não se conforma com seu pequeno emprego, briga com o chefe cabeça-dura, é um visionário e um sonhador (o chefe chega a perguntar: “Do you think people really want to see moving pictures?”). Ele gasta tudo em seus inventos, mas não recebe o merecido reconhecimento. Ele termina seus dias passando filmes de outras pessoas em pequenos shows de variedades. E tudo isso por um golpe de azar, tão comum aos pioneiros do cinema: o filme de Friese-Greene de 1889 não existe mais. Entretanto, ele conseguiu repetir o experimento em 1910, em uma disputa legal contra Thomas Edison para decidir quem era o inventor do cinematógrafo. William não apenas filmou e projetou as imagens em movimento, mas também o fez com fitas de celulose.


Mas foi Friese-Greene o real, pioneiro inventor do cinema, como ambos o filme e sua família advogam? Não exatamente. É impossível saber quem teve a ideia primeiro, em especial porque muitos documentos foram perdidos e não havia a rapidez das comunicações que temos hoje. Sim, Le Prince filmou em seu jardim em 1888, Edison (mais empresário que inventor) estava fazendo experiências em 1891, e em 1895 os irmãos Lumière faziam a primeira exibição pública de um filme. A verdade é que o cinema tem muitos pais, mas é imperdoável retirar o nome de William Friese-Greene da certidão de nascimento da sétima arte.  


This is my contribution to the British Invaders Blogathon, hosted by Terry Towles Canote from the blog A Shroud of Thoughts. Yes, sir! 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Bizarrices do espaço sideral: ficção científica nos anos 50

A primeira coisa que aparece no Google quando digitamos “worst 1950” é “worst 1950s sci fi movies”. E isso faz sentido. A década de 50 viu o boom dos filmes de ficção científica, muitos deles ótimos e inesquecíveis. Mas também foram produzidos filmes sofríveis, horrorosos e sem sentido, que são um verdadeiro atentado à inteligência humana. É sobre estes filmes que falarei.
                              
Os filmes ruins de ficção científica têm características em comum: pouco mais de uma hora de duração, baixo orçamento, efeitos especiais estranhos, atores desconhecidos e um problema que demora 50 minutos para se desenrolar, mas é resolvida em cinco minutos. Eles também geralmente são escritos e dirigidos pela mesma pessoa: Cy Roth, Dwain Esper (mestre dos filmes estranhos dos anos 30) e, óbvio, Ed Wood.

Os anos 50 foram povoados por grandes filmes como “O dia em que a Terra parou / The Day Earth stood still” (1951), “Guerra dos Mundos / War of the Worlds” (1953), “Vampiros de Almas / Invasion of the Body Snatchers” (1956) e “O incrível homem que encolheu / The incredible shrinking man” (1957). Mas na mesma década surgiram também coisas estranhas como “O robô alienígena / Robot Monster” (1953, o filme mais bizarro que eu já vi) e... “Plano 9 do Espaço Sideral / Plan 9 from Outer Space” (1959). Mas vamos falar de uma produção que, perto desses, é um poço de bom gosto: “Fire Maidens from Outer Space” (1956), que, traduzido para o português, seria algo como “Solteiras Fogosas do Espaço Sideral”.

Uma tripulação totalmente masculina parte rumo à 13ª lua de Júpiter. Eles têm a previsão de chegar lá em três semanas, mas após uma chuva de meteoros são puxados pela força gravitacional de um corpo celeste que mais tarde descobrimos ser Nova Atlantis, lugar que conta com um único homem, Prasus (Owen Berry), o governante e também único sobrevivente do sexo masculino da velha Atlantis. Como em toda sociedade estranha do cinema, aqui a tradição também é oferecer uma virgem aos visitantes, e a escolhida é Hestia (Susan Shaw), a filha de Prasus, que é oferecida ao astronauta Luther Blair (Anthony Dexter), o homem do nome ridículo. Luther completa: “If she is his daughter, I’m Genghis Khan!” Mas Prasus não tem como filha apenas Hestia, mas sim um pequeno exército de mulheres vestidas como sacerdotisas safadas.

Como um usuário do YouTube comentou, este filme apresenta “uma fantasia sexual imatura dos anos 50”. As mulheres de Nova Atlantis são ingênuas e submissas. Assim que o conhece, Hestia já quer largar tudo para fugir com Luther. E, é claro, a ordem é quebrada por uma rebelião de mulheres ciumentas. A visão machista é algo que os filmes de ficção científica, bons ou ruins, compartilham. Não é raro que corpos celestes sejam habitados por mulheres malucas, como acontece em “Cat-Women of the Moon” (1953), em que se descobre que um grupo de mulheres sedutoras e perigosas habita uma cratera da lua.

É normal que os filmes de ficção científica apresentem roupas e ferramentas tecnológicas que viram sonho de consumo dos espectadores. Eu, por exemplo, adoraria ter Robby, o robô, ou as joias e roupas de Anne Francis em “Planeta Proibido” (1956). Bem, as roupas das habitantes de Nova Atlantis não deixam de ser adoráveis, e lembram bastante as sacerdotisas gregas e romanas (as saias são mais curtas, é verdade). Outra boa surpresa, além do figurino, é trilha sonora de “Fire Maidens from Outer Space”: os créditos aparecem conforme toca uma bela música instrumental, e a única melodia conhecida em Nova Atlantis é “Strangers in Paradise”, uma de minhas favoritas.

Mas... por que esse tipo de filme era feito, em primeiro lugar? Bem, muitos deles apareceram como novidades do cinema 3D, como “Robot Monster” e “Cat-Women from the Moon” (ambos os filmes têm a trilha sonora assinada por Elmer Bernstein, no começo da carreira). E outro fator entra em cena: quem não quer fazer parte do maravilhoso mundo do cinema?

Em 1950 as pessoas perceberam que o cinema não era mais um lugar de intocáveis. Todos podiam fazer filmes. Tudo bem que a maioria não chegaria aos pés de uma superprodução da MGM, mas não custava sonhar. Bastava um pouco de dinheiro, pessoas dispostas a aparecerem (quem não queria ser estrela de cinema, mesmo que por um dia?) e algum jeito de distribuir o filme, ainda que isso demorasse algum tempo (“Plano 9” ficou pronto em 1957, mas só conseguiu estrear dois anos depois). Todos eram um pouco Ed Wood: apaixonados pelo meio cinematográfico e dispostos a fazerem parte dele, mesmo que lhes faltasse talento. E é isso que vemos hoje de novo: através da internet, todos podem lançar livros, filmes e músicas, mas os resultados não serão sempre bons. Mas pelo menos garantirão boas risadas.


Em tempo: em “Firen Maidens from Outer Space”, os astronautas viajam para a 13ª lua de Júpiter. O filme é de 1956. A 13ª lua de Júpiter só foi descoberta em 1974. Quem disse que o cinema não pode prever o futuro?

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terça-feira, 8 de julho de 2014

O Cavalo de Ferro / The Iron Horse (1924)

Em 1924, John Ford já havia feito 51 filmes como diretor, entre curtas e longas-metragens, e tinha mais 42 créditos como ator (sob o nome Jack Ford). Foi aí que a Fox resolveu contratá-lo para dirigir “O Cavalo de Ferro”, que seria a resposta do estúdio para o sucesso da Paramount “Os Bandeirantes / The Covered Wagon” de 1923. Quinze anos antes de tirar seu maior astro, John Wayne, dos filmes B, o próprio Ford teve esta grande experiência que o colocou, definitivamente, na lista dos grandes diretores.

David Brandon Sr (James Gordon) é um visionário. Ele imagina que um dia as ferrovias irão ligar o país de costa a costa, o que faz com que ele vire motivo de piada para os vizinhos. Mas seu amigo Abe (Charles Edward Bull) concorda com ele. Determinado a ver seu sonho virar realidade, David vai para o Oeste com seu filho pequeno, Davy (Winston Miller). Eles estão cheios de esperança, até que uma tribo hostil os ataca e mata David Sr. O pequeno Davy nunca mais se esquecerá do assassino, um homem com apenas dois dedos em uma das mãos.

O ano agora é 1862. O amigo esperançoso de David Sr é na verdade Abraham Lincoln, o presidente americano, e quer começar a construção de duas grandes ferrovias no Oeste. Milhares de trabalhadores se deslocam para lá, entre eles diversos chineses. Quem também precisa se mudar é a família Marsh, incluindo Thomas (Will Walling), o vizinho cético do começo do filme, e Miriam (Madge Bellamy), a namoradinha de infância de Davy. O problema é que Miriam não agüentou esperar a volta de Davy e ficou noiva do engenheiro inescrupuloso Peter Jesson (Cyril Chadwick). E Davy, onde está? Bem, cavalgando pelas planícies, ele é atacado por alguns índios, pula de seu cavalo e se esconde justamente na cabine do trem em que Miriam está!

Vemos aqui alguns dos elementos que apareceriam mais tarde nos filmes de John Ford: grandes tomadas ao ar livre (de “No tempo das diligências / Stagecoach”, 1939), lutas entre brancos e índios (“Forte Apache”, 1948), uma boiada que deve ser transportada (tema principal de “Rio vermelho”, 1948), a presença de figuras históricas como Lincoln e Buffalo Bill (“A mocidade de Lincoln / Young Mr Lincoln”, 1939), a filmagem em locação no Monument Valley (“Legião Invencível / She wore a yellow ribbon”, 1949) e uma boa briga no saloon, presente em qualquer western que se preze. E, é claro, uma dose impensável, mas bem-vinda, de humor.

Mas mais interessante que observar o que já ia se delineando da persona de Ford como diretor é ver que ele está aqui muito mais próximo de D. W. Griffith ou Cecil B. DeMille que de si mesmo no futuro. O filme chega a ser exagerado em sua duração (mais de duas horas), e conta uma história cheia de reviravoltas, tanto é que o espectador distraído ou desacostumado ao grau de atenção que o cinema mudo exige pode perder algum detalhe, como a identidade do homem de dois dedos (dica: é o homem que sempre fica com a mão no bolso).
Griffith: You dirty newcomer! Five years ago I would be the one doing this picture!
You'll see, you are too smal for a career in the movies!
Ford: I am BIG! It's YOUR pictures that got small!

George O’Brien era um ilustre desconhecido em 1924. Ele havia sido campeão de boxe na marinha durante a Primeira Guerra, e depois foi extra, dublê e assistente de câmera em Hollywood. O Davy interpretado por George é o personagem mais carismático do filme e o homem mais bonito do Oeste. É para ele que torcemos, embora Davy esteja, comparativamente, em poucas cenas. É a ferrovia a protagonista da história, isso ninguém pode negar.

Quando perguntaram para Orson Welles quais eram seus três diretores favoritos, ele respondeu: “John Ford, John Ford e... John Ford”. Para falar a verdade, Welles viu “Stagecoach” vezes antes de estrear na RKO com sua obra-prima “Cidadão Kane” (1941). A estreia do pupilo Welles acabou sendo mais brilhante que a do mestre Ford, até porque “O Cavalo de Ferro” estava longe de ser a primeira película de John Ford, então com 31 anos. E, curiosamente, em 1941, Welles perdeu o Oscar de Melhor Diretor exatamente para John Ford.

Talvez os westerns mudos percam um pouco da magia do gênero: nada de sons de tiroteios, de estouros da boiada, de trompetes anunciando a chegada da cavalaria, nem sequer o som do apito do trem, elemento tão importante neste filme (seria fantástico se ele terminasse com um apito autêntico). Apesar de ser uma obra ainda crua do diretor, ela nos dá o raro privilégio de ver o talento de John Ford em formação.

This is my contribution to The John Ford blogathon, hosted by Krell Laboratories and Bemused and Nonplussed. Bang, bang!!



P.S.: Jean Arthur aparece como extra, sendo creditada no IMDb como "repórter". Provavelmente ela está na cena com o presidente Lincoln ou na cena final. Se vocÊ souber exatamente onde Jean aparece, escreva nos comentários! :)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Garbo, Gilbert & MGM: um triângulo amoroso

Quando ela chegou à América, ele JÁ era um astro do cinema. Quando ele morreu, ela AINDA era uma estrela das telas. Os caminhos de John Gilbert e Greta Garbo se cruzaram nos primeiros tempos do maior estúdio de Hollywood. Garbo e Gilbert estavam lá para presenciar a MGM engatinhar e chegar ao topo. Eles também chegaram ao topo, como o casal mais famoso do mundo, isso logo depois de Douglas Fairbanks e Mary Pickford.
John Cecil Pringle nasceu no estado de Utah em 1897. De família simples, ele começou no cinema como extra, às vezes creditado como Jack Gilbert, mas sem muita empolgação. Trabalhou com o diretor Maurice Tourneur tanto atuando como escrevendo roteiros. Foi então que ele decidiu se tornar diretor. Sua beleza atrapalhou o caminho e a carreira de John como galã explodiu. Ele dirigiria apenas “Love’s Penalty” (1921) e algumas cenas de “Love” (1927), já com Garbo.
                                  
Gilbert foi contratado pela MGM no ano em que o estúdio começou suas atividades. Seu primeiro grande sucesso foi “Lágrimas de Palhaço / He Who gets slapped” (1924), com Norma Shearer e Lon Chaney. A coroação viria no ano seguinte, com “A viúva alegre / The merry widow” e, em especial, “O grande desfile / The Big Parade”, que rendeu 15 milhões de dólares nas bilheterias.
Greta Lovisa Gustafsson nasceu em 1905 em Estocolmo, Suécia. Também de origem humilde, foi vendedora e apareceu em pequenos filmes de propaganda antes de começar para valer na carreira de atriz. Acumulou elogios em filmes suecos e também na Alemanha, onde fez apenas “Rua das Lágrimas / Die freudlose gasse” (1925). Mas foi “A saga de Gösta Berling”, de 1924, que chamou a atenção de Louis B. Mayer, e ele contratou Garbo e o diretor Mauritz Stiller para seu novo estúdio. Seu terceiro filme na MGM seria “A carne e o diabo / Flesh and the Devil”, e por pouco ele nunca foi feito: Garbo queria voltar para a Europa após a morte prematura de sua irmã. O advogado da estrela a convenceu a continuar na América.

O dia era 17 de agosto de 1926. Garbo e Gilbert se apaixonam. Amor à primeira vista. Algumas versões dizem que Gilbert só conheceu a companheira na hora de rodar a primeira cena, em que a personagem de Garbo, Felicitas, desce de uma carruagem. A expressão de encantamento no rosto de Gilbert, imortalizada em película, seria verdadeira. Outra versão diz que Garbo esnobou Gilbert (Gilbert: “Hello, Greta!” Garbo: “It’s Miss Garbo!”) quando foram apresentados, mas depois não resistiu aos encantos do ator. Talvez haja um pouco de verdade em ambas as histórias. Mas o que importa é que há uma rara explosão de paixão em “The Flesh and the Devil”.
Garbo, Gilbert e Lars Hanson em "Flesh and the Devil"
Naquela época Gilbert chamava Garbo de “Flicka” (“svensk flicka” = garota sueca) e Garbo chamava Gilbert de “Yacky” (= Jack). O próximo filme deles seria “Love” (“Garbo and Gilbert in Love”, entendeu?), uma adaptação de Anna Karenina. A este de seguiu “A woman of affairs” (1928) e vários pedidos de casamento. Talvez não vários, mas pelo menos dois. Quando ela aceitou, foi preparado um casamento duplo em 8 de setembro de 1927, que contava também com os noivos King Vidor e Eleanor Boardman, mas Garbo não apareceu. Louis B. Mayer comentou: “Por que se casar com a garota se você pode dormir com ela e esquecer o que aconteceu?” (Mayer usou o verbo pejorativo “screw”). Gilbert, frustrado e furioso, atacou Mayer. Era o começo do fim.

O cinema sonoro havia chegado. Como transportar os astros da tela muda para essa nova realidade? Gilbert o fez em 1929, e se engana quem diz que a voz dele era horrorosa: dono do uma voz perfeitamente normal, ele foi sabotado por Mayer. Pouco a pouco foram diminuindo as ofertas de trabalho, e os papéis eram cada vez piores. A frustração era combatida com álcool, o que piorava a situação de Gilbert. Garbo, por sua vez, teve sua estreia com som adiada até 1930, e ficou para sempre estereotipada como a mulher inatingível, graças a seu sotaque peculiar.

Garbo e Gilbert fizeram mais um filme juntos, “Rainha Cristina / Queen Christina” (1933), e foi Greta que insistiu que John fosse contratado para o papel. Antes disso, Gilbert havia sido considerado para dois papéis em filmes sonoros de Garbo: o de protagonista em “Susan Lenox” (1931), que ficou com Clark Gable, e o do barão Von Geigern em “Grande Hotel” (1932), interpretado depois por John Barrymore, mas cuja primeira opção era Buster Keaton. Depois de Garbo, Gilbert se casou mais duas vezes. Em 1936, John Gilbert faleceu de ataque cardíaco.

O estrelato de Gilbert durou cinco anos. O de Garbo, 16. Se não fosse a MGM, eles talvez jamais tivessem se conhecido. Com Gilbert, Garbo perdia sua timidez e se sentia, pela primeira vez, acolhida na América. Faltam-me palavras para falar sobre este casal que, apesar de não ser perfeito, viveu intensamente, à maneira deles, a vida e o relacionamento.

This is my contribution for the MGM Blogathon, hosted by the Metzinger sisters, Constance and Diana, at Silver Scenes, in honor of the studio’s 90 years. Hooray!


domingo, 22 de junho de 2014

Irma la Douce (1963)

Amado por quase todos os fãs de cinema que têm bom gosto, Billy Wilder foi um diretor de grandes obras e grandes parcerias. Minha parceria favorita é a de Wilder com Jack Lemmon, que rendeu comédias inesquecíveis. Talvez “Irma la Douce” seja a mais esquecida desses filmes inesquecíveis, mas não porque seja um filme ruim. Pelo contrário: apesar de sua duração um pouco exagerada, a risada corre solta no cais de Paris.


Nestor Patou (Jack Lemmon) é um policial francês que acaba de ser transferido para o cais. Este homem cumpridor da lei acha que o trabalho vai ser fácil, mas ele não sabia que ali funciona um ponto de prostituição. Depois de mandar todas as moças do local para a cadeia, ele perde o emprego, mas se apaixona por uma das “trabalhadoras” do cais: Irma (Shirley MacLaine). Logo Irma e Nestor moram juntos e ele se torna, sem querer, o chefe dos cafetões ao derrotar o ex-namorado de Irma, o nanico Hyppolite (Bruce Yarnell). Mas Nestor não quer que Irma continue trabalhando como prostituta e, com a ajuda do dono do bar Chez Moustache (Lou Jacobi), ele inventa um provedor rico para Irma, o Lorde X.

Já reparou como praticamente todos os filmes de Billy Wilder têm uma festa maluca? Não há melhor lugar para se fazer uma festa no cais de Paris que no Chez Moustache. Os frequentadores são geralmente os cafetões e suas garotas, entre elas Lolita, que usa óculos em formato de coração exatamente como os de Sue Lyon no filme de 1962.


Wilder mostrou que há vários modos de se prostituir com “Se meu apartamento falasse / The Apartment” (1960) e aqui lida com o tema espinhoso da prostituição de uma maneira leve. Shirley MacLaine já havia interpretado uma prostituta em “Sweet Charity” (1957), embora o filme tenha transformado a “mulher da vida” em dançarina. Irma, La Douce (= the sweet) entra para a galeria de adoráveis prostitutas do cinema, que conta também com a Cabíria de Giulietta Masina, a Satine de Nicole Kidman e até a Holly Golightly de Audrey Hepburn. São mulheres que estão no “negócio” por acaso (a própria Irma diz que seguiu os passos da mãe) e sonham em mudar de vida. A chance de Irma aparece quando surge em sua vida o Lorde X, que lhe enche de dinheiro apenas para conversar e jogar cartas.

Shirley MacLaine pode estar adorável com suas roupas verdes, seu charme irresistível e seu penteado exagerado, mas quem brilha é Jack Lemmon. De fato, Jack tem alguns de seus mais memoráveis personagens em filmes de Billy Wilder, a começar pela impagável Daphne de “Quanto mais quente melhor / Some like it hot” (1959), passando pelo simpático C. C. Baxter de “The Apartment” (1960), e indo até “Uma loura por um milhão / The fortune cookie” (1966) e “Avanti!” (1972). É uma pena que Lemmon não ficou com o papel principal de “Beija-me, idiota / Kiss me, stupid!” (1964), filme em que trabalha a esposa de Lemmon, Felicia Farr. Aliás, Lemmon e Felicia se casaram na França durante as filmagens de “Irma la Douce”. Wilder foi o padrinho do casamento.
 
Jack e Felicia
Se foi fácil encontrar o ator perfeito para Nestor, o mesmo não aconteceu com o resto do elenco. Wilder queria, apesar de problemas do passado, contratar Marilyn Monroe para interpretar Irma, isso logo em 1960. Marilyn acabou descobrindo que o diretor a criticou durante as filmagens de “Quanto mais quente melhor” e assim abandonou o projeto. Quando “Irma la Douce” estreou, Marilyn já estava morta. Outro que morreu antes de conseguir o papel foi Charles Lughton, escolhido para ser Moustache. Laughton, que havia sido indicado ao Oscar por outro filme de Wilder “Testemunah de Acusação / Witness for the Prosecution” (1957), faleceu em dezembro de 1962, antes do início das filmagens.

No início, Jack Lemmon foi aconselhado a não aceitar o papel de Nestor, porque ele poderia manchar sua imagem. Mas Lemmon recebeu esse mesmo conselho antes de interpretar Jerry, o músico que se veste de Daphne na divertida comédia de 1959, e foi com esse papel cross-dressing que ele conseguiu sua primeira indicação ao Oscar na categoria Melhor Ator (Jack havia ganhado o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante em 1957 por “Mister Roberts”). Já Shirley MacLaine, que aceitou o papel sem ler o roteiro, detestou o resultado. Mas ninguém concordou com ela, e Shirley foi indicada ao Oscar.


“Irma la Douce” foi inspirado em um musical francês que foi também adaptado para a Broadway. Para criar o clima a la française, todos os vidros usados no filme foram importados da França e centenas de objetos franceses foram replicados em Hollywood. Algumas cenas externas foram gravadas na França, inclusive a cena em que Lemmon, como Lorde X, sai do Rio Sena. Mais tarde, recordando-se das inúmeras vacinas que teve de tomar antes de entrar no rio sujo, Lemmon diria que esta tinha sido a cena mais nojenta de sua carreira.


As palavras são muitas para descrever como o clima do filme é adorável. Atrevo-me a dizer que nunca houve nada tão parisiense na tela do cinema americano, o que inclui um cachorrinho bêbado (não tente fazer isso em casa!). “Irma la Douce” foi o filme mais rentável da carreira de Billy Wilder, e só isso já seria motivo suficiente para vê-lo. Em novos tempos, com menos restrições e censuras, não havia dúvidas de que seria o bom e velho Billy o responsável por uma ousadia tão bem-sucedida.


This is my contribution to the Billy Wilder Blogathon, hosted by Aurora at Once Upon a Screen and Kellee at Outspoken & Freckled. But that’s another story!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O fabuloso Dr. Dolittle / Doctor Dolittle (1967)

Considerado um dos piores (se não o pior) indicados ao Oscar de Melhor Filme, “Doutor Dolittle” também representou o ponto mais baixo da carreira do grande Rex Harrison. Mas, querendo ou não, eu adoro este filme. É meu “guilty pleasure”. E nem posso dizer que o que sinto é uma nostalgia de quem viu um filme na infância e não liga para a qualidade real da obra, porque eu só fui ver as infames aventuras do médico que fala com os animais quando eu tinha 20 anos.
                       
John Dolittle (Rex Harrison) é um veterinário que fala com os animais. Seu maior objetivo no momento é encontrar o misterioso caracol rosa gigante (“Great Pink Sea Snail”). Já dá para imaginar como o filme vai ser bizarro. Junto com ele vão Emma Fairfax (Samantha Eggar), Matthew Mugg (Anthony Newley) e o garotinho Tommy Stubbins (William Dix). Antes de partir, ele conta a seus novos amigos que foi com a ajuda do papagaio Polinésia que ele, um médico comum, aprendeu a se comunicar com os animais.
"Great Pink Sea Snail"

Embora estar cercado de animais possa parecer um sonho para muitos (e certamente é um prazer para o doutor Dolittle), o que aconteceu nas gravações foi um pequeno inferno na Arca de Noé. Rex Harrison foi ferido diversas vezes pelos animais e serviu de vaso sanitário para as ovelhas urinarem. Esquilos comeram parte do cenário, um esquilo desmaiou depois de tomar gim e uma cabra comeu o roteiro. Polinésia, o papagaio, aprendeu a dizer “corta” e atrapalhou a gravação de um número musical, fazendo com que Harrison dissesse, bem-humorado: “é a primeira vez que eu sou dirigido por um papagaio!”.

Quebra-cabeça do filme
E por que “Doutor Dolittle” foi um fracasso? Talvez por sua duração exagerada (152 minutos)? Ora, “Mary Poppins” (1964) tem 144 minutos e tudo mundo ama Mary Poppins! Seriam os animais (em especial o caracol rosa que não é rosa)? Não, todas as crianças adoram animais, e o dito caracol ajudou o filme a ganhar o Oscar de Melhores Efeitos Especiais (a lhama de duas cabeças “Pushmi-Pullyu” já é outra história). Hum, talvez a história inverossímil e cheia de reviravoltas em circos, tribunais e hospícios? Talvez, talvez...

Mesmo o fato de Dolittle ser um homem que gosta mais de animais do que de pessoas (nas próprias palavras do médico) já foi apontado como uma das causas do fracasso do filme. Em um ano dominado por “No calor da noite / In the heat of the night”, que ganhou 5 Oscars, foi surpreendente ver “Doutor Dolittle” com nove indicações e dois prêmios – um deles, o de Melhor Canção Original pela adorável “Talk to the animals”. Truman Capote, enfurecido pelo filme “A Sangue Frio”, baseado em seu livro, não ter sido indicado ao Oscar, disse na ocasião: “Anything allowing a Dolittle to happen is so rooked up it doesn’t mean anything!”.

Talvez a maior crítica feita ao filme seja o fato de Rex Harrison não saber cantar. Talvez a escolha de um cantor profissional para o papel protagonista tivesse sido mais interessante. Eu, pessoalmente, adoraria ver Frank Sinatra ou Bing Crosby como Doutor Dolittle! (Pense bem: Sinatra seria a escolha mais FASCINANTE possível para o papel!).

Quem quer um boneco do Rex Harrison?
Mas a polêmica é maior: Rex Harrison aceitou o papel porque trabalharia novamente com o letrista Alan Jay Lerner, de “My Fair Lady”, peça que rendeu um Tony e um Oscar a Rex (e não é uma estranha coincidência que o nome da protagonista de “My Fair Lady” seja Eliza Doolittle?). Mas Lerner foi demitido na fase de pré-produção e, devido às suas reclamações, Rex perdeu o emprego pouco depois. Mas, ao saber que Christopher Plummer poderia ser seu substituto, o bom e velho Rex Harrison foi pedir o papel de volta. Mesmo assim, Plummer recebeu os 300 mil dólares do contrato. Outras opções para o papel principal eram Alec Guinness, Jack Lemmon, Peter Sellers e Peter Ustinov (eu escolheria Jack Lemmon).

Logo após o sucesso estrondoso de “A Noviça Rebelde / The Sound of Music” (1965), a Fox decidiu investir em musicais grandiosos. Foram três tentativas, e todas fracassaram. “Doutor Dolittle” foi a aposta de 1967, enquanto em 1968 a grande produção era “A Estrela / Star!”, com Julie Andrews, e em 1969 foi a vez de “Hello, Dolly!”, estrelando Barbra Streisand e com direção de Gene Kelly.
DENTRO do "Great Pink Sea Snail"!

O personagem doutor Dolittle foi inventado por Hugh Lofting nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, de onde ele escrevia cartas esperançosas para os filhos. As histórias foram publicadas em 1920, com sucesso instantâneo, e serviram de base para um desenho animado alemão de 1928 e uma série de rádio na década de 1930. A personagem Emma não existia nos livros e foi criada exclusivamente para adicionar romance ao filme. E que romance: ela é cobiçada ao mesmo tempo por Dolittle e Matthew!

Mas vamos analisar com calma: “Doutor Dolittle” é um belo filme, não apenas visualmente. As músicas são adoráveis, embora não memoráveis, e Rex Harrison dá ao médico ares de gentleman poliglota. O modo como os nativos africanos são retratados, como homens inteligentes, vai na contramão dos costumes da época e também dos livros de Hugh Lofting. E pensar que o papel do rei William Shakespeare X (Geoffrey Holder) tinha sido oferecido para Sidney Poitier!

Esqueça o que foi dito sobre “Doutor Dolittle”. Veja o filme. Se este post de defesa de um filme tão adorável não foi capaz de convencer você de que vale à pena vê-lo, talvez estes adoráveis créditos iniciais o convençam:

This is my contribution to the “1967 in Film” Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Rosie at The Rosebud Cinema.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Interlúdio / Notorious (1946)

O mestre do suspense. Dois dos melhores e mais charmosos atores da época: uma pérola sueca e um diamante inglês. Um beijo provocante e quente. Um coadjuvante brilhante. A cidade maravilhosa. Essa combinação só poderia resultar em uma obra-prima.
Alicia Huberman (Ingrid Bergman) sofreu um duro golpe familiar: seu pai foi considerado traidor do país e condenado à prisão. Depois de ser convencida de que seu desprezo pelo pai traidor é uma prova de amor à América, Alicia aceita a proposta de T. R. Devlin (Cary Grant) e se torna uma caçadora de nazistas no Rio de Janeiro. A missão parece ser levada longe demais quando Alicia se casa com Alexander Sebastian (Claude Rains), prova viva de que por trás de um grande vilão há sempre uma mãe insuportável (Madame Konstantin).
Alicia e Devlin continuam se encontrando. Ela está apaixonada, apesar do casamento com Alexander, mas Devlin esconde seus sentimentos. Juntos em uma festa na luxuosa mansão Sebastian, eles vão revistar a adega em uma das cenas mais angustiantes do filme. Logo antes de Alicia e Devlin descerem à adega, temos o famoso travelling em que Hitchcock começa do topo das escadas e termina focalizando a chave na mão de Alicia. Após as filmagens, Grant ficou com a chave e, anos depois, deu-a para Ingrid Bergman, desejando que o objeto lhe servisse de amuleto.

Embora o projeto do filme tenha sido iniciado por David O. Selznick, no meio do caminho ele vendeu todo o pacote para a RKO (o diretor / produtor estava tendo problemas com “Duelo ao Sol”) e lá se foi, feliz da vida, Hitchcock filmar com liberdade, livre dos memorandos contínuos do patrão Selznick.

E essa liberdade ficou óbvia na cena mais ousada do filme, quiçá da década: o demorado beijo entre Cary Grant e Ingrid Bergman no apartamento de frente para o mar. Se na época do Código Hays a duração máxima de um beijo era de três segundos, Hitchcock contornou a regra ao juntar vários beijos de três segundos, entrecortados por uma conversa simples e caseira, em uma cena de três minutos de pura luxúria tropical.
O elenco do filme é primoroso. Mesmo assim, algumas brigas ocorreram até que todos fossem escalados. Hitchcock queria Grant para o papel de Devlin. Selznick queria Joseph Cotten. Hitchcock queria Clifton Webb para interpretar Alexander. A opção de Selznick sempre foi Claude Rains. Hitchcock e Selznick tentaram contratar Ethel Barrymore para o papel da Madame Anna Sebastian. Com o fracasso veio a indicação da atriz alemã Leopoldine Konstantin, que teve em “Notorious” seu único trabalho em Hollywood. Mas que grande trabalho foi esse!  
Embora a maioria dos filmes sobre espionagem seja protagonizada por homens, “Notorious” mostra a bravura das mulheres em tempos de guerra. De fato, a maioria das espiãs agiu em meio à guerra (alô, alô Mata Hari), e muitas não sobreviveram para contar suas várias histórias. Essas moças corajosas muitas vezes usavam como principal arma a sedução, o que acontece também aqui com Alicia. E ela também corre o risco de ser eliminada. Mas, no caso de Alicia, ela não deve temer um pelotão de fuzilamento, mas sim sua própria xícara de chá envenenado!
Não podemos nos esquecer de que a maior parte da ação se passa no Brasil! O erro de geografia foi pequeno, pois muitos nazistas de fato vieram para a América do Sul, mas o destino deles foi majoritariamente a Argentina. Mesmo assim, há um fato sinistro envolvendo nazistas: Josef Mengele passou os últimos anos da vida no Brasil, morrendo afogado em uma praia de Bertioga. Aliás, associar nazistas com o Brasil foi um ato também do novelista Ira Levin, autor de “Os meninos do Brasil”. 

O sempre talentoso roteirista Ben Hecht mais uma vez trabalhou com Hitchcock em uma história tão explosiva quanto o urânio que aparece em um possível plano de Alexander Sebastian e seus camaradas nazistas criarem uma bomba atômica. Depois de lidar com o tema do urânio no filme, Hitchcock ficou alguns meses sendo vigiado pelo FBI. Mas o que realmente é explosivo é o elenco. O nanico Claude Rains mostra seu talento gigante. E só uma coisa pode ser dita sobre Grant e Bergman: que pena que não fizeram mais filmes juntos!

This is my contribution to the Snoopathon, a classic detective blogathon hosted by Fritzi at Movies, Silently.  

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Estudando cinema... sem sair de casa! – Parte 2

Oops I did it again! Sim, eu me matriculei em mais um curso online. Sim, era um curso online sobre cinema. E sim, era da Wesleyan University. Acompanhe agora mais um episódio das minhas aventuras como caçadora de diplomas!
                                         
Vendo a sessão sobre cursos de arte, ainda no mês de março, eu vi um anúncio de um novo curso sobre cinema chamado “I Do and I Don’t”, que começaria no dia 21 de abril. O assunto: casamento no cinema. Como os filmes mostraram a vida de casados? Quais as diferenças entre uma época e outra? Quais os problemas que os casais cinematográficos enfrentavam? O que constitui um “marriage movie”? Essas eram as perguntas a serem respondidas pela professora (e responsável pelo rico acervo da Wesleyan University) Jeanine Basinger. Ela é também autora do livro que serviu de base para o curso, e sobre o qual eu só ouvi elogios.
Foram cinco semanas de aula e dez filmes para serem assistidos como exemplo e dever de casa. Entretanto, vê-los não era obrigatório, de modo que se alguém não conseguisse encontrar alguns deles, não ficaria prejudicado (talvez só recebesse spoilers). Os filmes eram mais para exemplificação que para análise, o contrário do que aconteceu no primeiro MOOC de cinema da Wesleyan, The Language of Hollywood.

Por incrível que pareça, eu e mais outras pessoas do curso gostamos mais do filme que não era para ser assistido como exemplo, mas que foi recomendado em uma lição: “Fogo de Outono / Dodsworth” (1936). Um casal de meia idade, Sam e Fran Dodsworth (Walter Huston e Ruth Chatterton) vai para a Europa depois que Sam vende sua fábrica de automóveis. Ambos têm medo da velhice, e cada um a enfrenta de seu jeito: enquanto Sam quer mostrar-se útil e ativo, Fran prefere paquerar homens mais novos (!). Excluindo este filme, o melhor é o belo e agridoce “Desencanto / Brief Encounter” (1945), sobre uma dona de casa simplória (Celia Johnson) que começa um affair com um médico (Trevor Howard), encontrando-se com ele todas as quintas-feiras.
Dodsworth (1936)
Outro escolhido foi “A costela de Adão / Adam’s Rib” (1949) e, embora seja um bom filme sobre problemas na vida conjugal, eu acredito que seria melhor ter passado aos alunos a tarefa de ver “A mulher do dia / Woman of the Year” (1942), com a mesma dupla Hepburn-Tracy, mas com um enredo no qual a maioria dos casais se identificaria. E mais um filme excelente indicado foi “Desde que partiste / Since you went away” (1944), com um elenco esplêndido.

Embora a terceira semana, sobre os sete problemas que o cinema impunha para transformar em drama a vida de um casal feliz, tenha sido muito interessante, a minha semana preferida foi a primeira, sobre “marriage movies” no cinema mudo. Esta semana também me deixou com excelentes indicações de filmes para procurar, entre eles os muitos de De Mille com Gloria Swanson. E, para melhorar, a primeira semana também teve a exibição de “Orquídeas Silvestres / Wild Orchids” (1929), uma espécie de “O Véu Pintado / The Painted Veil” (1934) em Java estrelando Greta Garbo, Lewis Stone e o belo e exótico Nils Asther.

Um problema que eu vi neste curso e não havia visto em nenhum outro foi a quantidade de pessoas insatisfeitas nos fóruns. Muitas reclamavam que tinham de comprar ou alugar os filmes para um curso que se dizia gratuito. Outras tantas começaram a levar para o lado pessoal, dizendo que não gostavam de filmes tristes ou, pior, o que aconteceu comigo: comecei um tópico sobre “remarriage comedy”, um termo que vi pela primeira vez em um blog que comentava o filme “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story” (1940). “Remarriage comedy” é aquele filme que começa com o divórcio e toma todo o caminho para mostrar que o casal deve ficar junto no final. Pois bem, a resposta que eu recebi foi de uma pessoa reclamando sobre como os participantes do curso se achavam verdadeiros psicólogos, “marriage consultants”, e ainda essa pessoa começou a dizer como o casamento dela havia sido horrível! Na próxima sessão de cursos como esse eu sugiro que a plataforma Coursera proíba comentários anônimos.
Jeanine Basinger
Mas, afinal, o que é “marriage movie”? Segundo Jeanine, é aquele filme que seria completamente diferente se os personagens não fossem casados. Mas, mais do que isso, eu aprendi algo muito profundo com esse curso: que o divórcio foi uma das melhores coisas já inventadas. Ou, nas palavras de Gloria Swanson:


“I don’t believe in marriage as an institution. I believe in divorce as an institution”.
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